London, London
20:09 postado por Thiago Terenzi
Dizem que por volta de mil seiscentos e sabe-se-lá-quanto, numa Londres devastada pela Peste Negra, as pessoas assustadas fugiam de suas casas e firmavam acampamento no Hyde Park. Era como se ali – dizem, sempre dizem –, em meio às árvores, lagos e todo aquele bucolismo estranho a uma metrópole, era como se ali fosse uma espécie de porto-seguro, seguro até mesmo da peste, da morte, do medo. Não sei se é verdade, não sei de muitas coisas. Mas sempre que vou a Londres, como agora, como hoje, sempre pela manhã, sempre de manhazinha, sempre caminhando pela Bayswater Street, leve frio londrino, brisa suave, cappuccino quente entre os dedos, aproveito para sentar em algum banco livre próximo a alguma árvore sem folhas, sempre sem folhas, no Hyde Park. Sempre próximo ao lago, sempre sozinho. Sempre fecho os olhos e me imagino protegido, protegido da peste, da morte, do medo. Nunca fui de acreditar em impossíveis, nunca acreditei em fadas, duendes, deuses e isso-que-eles-chamam-de-plenitude – mas é que talvez por ser Londres ou talvez pelo clima mágico ou quem sabe por eu estar ficando meio velho e precisando de algumas crenças, mas é que enquanto fecho os olhos, leve frio arrepiando os pelos, leve brisa bagunçando meus cabelos cada vez mais ralos cada dia um pouco mais ralos, é que quando fecho os olhos me sinto realmente protegido. De uma proteção tão frágil quanto a que sentiam séculos antes aqueles pobres londrinos fugidos da peste. Como se aquela leve magia do parque pudesse salvá-los. Como se aquele frágil instante de plenitude-distraída pudesse me salvar.
Dia desses andando sem destino pelo parque, como sempre tenho andado desde nem-me-lembro-quando, dia desses perdido como me é de costume, ando me perdendo tanto e tanto que nem sei ao certo o que fazer de mim – dia desses pelo parque, numa das margens do Serpentine Lake, encontrei uma imagem esculpida em pedra, linda, imponente, cinza, grande, muito grande: um pássaro de asas fechadas, um pássaro lindíssimo, não me lembro a espécie, não sei de muitas coisas mas sabia que era lindo e lindo de um encanto mágico. Nunca me encantei por animais, mas aquela figura altiva, um pássaro enorme de asas corpulentas protegendo todo o corpo, olhar penetrante e bico largo num estranho sinal de reverência, reverência a mim, justo a mim, eu que sou tão menor que qualquer pássaro, tão frágil, tão pequeno, tão ridiculamente frágil e pequeno – imóvel, sempre imóvel, estudei a escultura enquanto ela, também imóvel, parecia me fitar.
Após segundos de completo choque e êxtase contido, reparei ainda distraído, como ando desde nem-me-lembro-quando, ando tão distraído tão sem-motivo para qualquer atenção, reparei numa placa de ferro abaixo dos pés imponentes daquele pássaro. Havia algo escrito. Meu inglês péssimo sempre péssimo, nunca soube de muitas coisas, nunca soube de muitas palavras além do mínimo necessário para sobreviver em Londres, meu inglês jamais me deixou traduzir com exatidão o que havia ali – talvez o escrito contasse a estória daquela ave estranhamente corpulenta, talvez revelasse a identidade do escultor, algum famoso artista plástico londrino, vai saber, as palavras eram difíceis, vocabulário complicado e há tempos eu já não me dedicava mais aos estudos, há tempos eu já não me dedicava mais a quase nada -, mas, em meio a frases desconexas, uma palavra me saltou aos olhos: wish, que é desejo. E eu desejo tanto, nem sei o quê, mas desejo. Às vezes fecho os olhos e repito três vezes algum pedido, algum desejo, repito ao deus ou ao que chamam de deus, não sei ao certo, não sei a quem e nem sei se realmente acredito, nunca fui de acreditar em muitas coisas, mas talvez: o desejo baste. Wish, wish, wish repito comigo, sempre três vezes, só para ouvir a bonito som da palavra. E então faço um pedido com alguma esperança que nunca tive, nunca fui de ter fé nunca fui de ter muitas coisas, e então peço um desejo, qualquer coisa, qualquer coisa que se possa desejar.
Na placa, presumi, estava escrito ao final algo como deposite aqui uma moeda e faça um desejo. Havia um espaço para depositar dinheiro, uma caixa de bronze, cerâmica ou de alguma outra pedra, nunca fui bom para identificar tipos e pedras e todo o resto, e a caixa, pensei, parecia com alguns dos meus porquinhos que sempre tive na infância, esses porquinhos-cofre em que a gente deposita algum dinheiro, tive saudades dessa época e tive saudades dos meus porquinhos.
Peguei uma moeda, a maior que eu tinha, nunca fui de ter muito dinheiro nunca fui de ter muitas coisas, peguei uma moeda de dois pounds, segurei firme, estava gelada, queimava a mão, as moedas são sempre muito frias no inverno, pensei, e então me veio em mente que talvez eu também estivesse sempre muito frio neste meu inverno que já durava já-nem-lembro-quanto-tempo, não me lembro de muitas coisas. E então eu pensei em quantas moedas existiam abaixo daquele Pássaro Imponente, pensei em quantos desejos haviam sido desejados e em quantos pedidos desesperados haviam sido pedidos desesperadamente em frente ao Pássaro, aquele Pássaro. Quantas moedas haveriam ali? quantas nacionalidades? quantas estórias parecidas? quantas épocas? quantos desejos? quantos desejos? Será que teriam sido atendidos?
Com mãos firmes, segurei a moeda. Quantos reais valeriam dois pounds? não fazia ideia, nunca fui bom com dinheiro, tentei convertei em euros depois reais, desisti. Segurei ainda mais firme a moeda e desejei, desejei alguma coisa, I wished something, wish, wish, wish, digo agora em inglês para sentir o som da palavra. Nunca fui de crer, nunca fui de ter fé – mas talvez fosse o Pássaro ou talvez o clima mágico que me envolvia ou talvez por ser Londres e estar em Londres talvez fosse tão surreal que qualquer fé fosse possível. Talvez fosse, me veio agora, por eu estar querendo tanto e tanto e tanto que aquilo tudo fosse real – ah, e eu queria tanto que talvez por querer: talvez fosse real. Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam, lembrei de Clarice. E então, com um desejo tão forte e tão sincero e tão real de quem deseja e deseja mais que tudo – e então depositei a moeda, dois pounds, de olhos fechados. Queria tanto, sabe? e quando se quer muito, quando se quer de verdade, dizem, a coisa acontece. Quando se quer muito, tudo deveria acontecer. Acontecerá, pensei comigo mesmo. Assim será, assim será, assim será, repeti três vezes, em silêncio, só para o deus ouvir. Ou o Pássaro, quem sabe.
O Estrangeiro
16:34 postado por Thiago Terenzi
Ando pensando também que este clima estranho e fechado e soturno e este frio cortante nos convidam à lembrança. E a lembrança é sempre perigosa. Este balanço suave e o barulho da leve camada de neve batendo sobre o vidro, o vento avançando sob as frestas num som agudo típico deste algum lugar do Leste Europeu (ou será França? Inglaterra? Irlanda? talvez algum lugar da Holanda visto o sotaque carregado murmurado entre as finas paredes do trem). Mas ando pensando que este clima propício nos leva à lembrança. Nos leva a querer exatamente o que buscávamos esquecer. Há alguma melancolia nestas terras estranhas que nos convida à catarse. Se tivesse caneta, penso eu novamente, escreveria. Mas nunca tive muito. Nunca fui de possuir, sempre preferi o feeling, o tactus da coisa.
Ando pensando sobretudo – e talvez influenciado pelo clima cinza e estranho deste sabe-se-lá-que-lugar, e ao contrario de toda a fuga planejada nos últimos tempos, New York Londres Berlim Oslo Amsterdam Budapeste e depois nem importava mais qual cidade qual país qual língua, importava apenas ir e ir e ir e buscar alguma coisa que ainda não sei mas saberei, tenho fé, eu acho – ando pensando em te ligar. Ontem ou anteontem, não me lembro, em alguma dessas cidades de céu sempre cinza, sempre noite, sempre triste, vi um senhor, talvez latino, talvez árabe vendendo cartão telefônico internacional. Sabe-se lá o porquê, nunca tenho para quem ligar, não sobraram muitas pessoas nunca tive muitas pessoas, peguei a carteira e procurei restos de euro ou pound, nem me lembro mais, nunca me lembro – e comprei. Ando desde então pensando em Te ligar.
E entre as estações e entre as cidades sempre escuras sempre frias sempre lindas sempre irritantemente lindas, e nos trens ou nos aviões ou nos ônibus, ando ensaiando alguma ligação. Ando ensaiando tantas coisas, acredite. Embora talvez não se valha mais a pena acreditar, já não importa mais ter fé. Ando ensaiando talvez Te dizer algo como. Já não sei mais, acho que não quero, a lembrança é difícil, as cicatrizes estão sempre meio abertas, meio doloridas, meio vivas. Talvez tenhamos destruído todas as possibilidades cedo demais, talvez tenhamos dito cedo demais aquilo que não se deve dizer. Porque éramos jovens, éramos crianças e havia muito para ser vivido, para ser experimentado, sempre há muito para se experimentar quando se é jovem. Eliminamos cedo demais todas as possibilidades – porque há palavras que não podem ser ditas, depois voltar atrás é tão difícil, tão difícil, Você sabe. Re-construir, aprendi com o tempo e com os bares e com o frio, é tão mais difícil que construir, sabe?
Talvez eu pudesse Te dizer tudo isso, talvez eu devesse, antes de mais nada, me dizer. Mas acho que esse frio e esses lugares-sem-identidade e essa neve gélida e essas noites eternas sempre noite sempre noite – acho que não sei mais dizer. Pensei em escrever, sempre fui bom com as letras, mas já não sei em que língua ainda sei sentir. Deve haver um porto, li um dia em algum livro talvez brasileiro irlandês inglês alemão espanhol ou português. Deve haver, repeti. Haverá.
Uma estória tristíssima
17:43 postado por Thiago Terenzi
Ah, é tudo tão igual que me enjoa. Você aí com esse ar de a-vida-me-é-cruel e vou-me-jogar-da-ponte mas no fundo é tudo igual. Você de rosto inchado de tanto chorar ascendendo esse cigarro molhado de chuva, tentando fazer o fogo pegar mas no fundo é sempre assim. Você culpando deus-destino-acaso-alá-jesus ou qualquer coisa do tipo mas não há culpados não. Tira esse ar patético de Homem Mais Triste do Mundo e vive. É tudo igual. É um filme sem graça que se repete, uma tragicomédia mal feita seguindo sempre aquele mesmo roteiro cult furado de clímax e anti-clímax.
Você aí chorando entre a bebida e o cigarro trancado em casa ou bebendo sozinho em algum boteco sujo de alguma rua escura e dirigindo rápido avançando sinais e cortando carros sempre bêbado fingindo não ter nada a perder. Mas você é só mais um, boy. São todos iguais. Discursinho de quero-morrer-que-os-deuses-não-me-amam olhar acuado voz embargada. Tudo igual. E você aí dirigindo rápido e bêbado e querendo quem sabe algum desastre enfim – mas não vai acontecer nada não. As tragicomédias são todas iguais: desastre vem quando se está distraído, quando se é tudo luz. E por enquanto é só autodestruição frustrada.
Por enquanto é você aí bêbado de vodca vagabunda, barba por fazer, carreiras escondidas no banheiro do boteco e algumas trepadas sem sentido, logo você que nunca viu sentido em sexo-sem-amor. Por enquanto é você acordando sozinho no quarto, sol na cara, ressaca nos olhos e boca seca de vômito. E então lhe vem na mente aquele poema bonito, Hilda Hilst talvez – é sempre algum poeta bêbadofrustrado – e finge declamá-lo altivo na cama a um corpo sem rosto que provavelmente nunca existirá. Nunca existirá. É sempre igual.
É sempre assim: alguns meses de porres e trepadas sem razão até algum dia num boteco qualquer, cansado de procuras no escuro e de ressacas intermináveis e de corpos estranhos e de fugas eternas e de tudo aquilo que se via no espelho e que não era – até que, naquele boteco você bêbado implorando socorro em silêncio, olhos vermelhos, barba por fazer. Até que.
É sempre assim, boy. As tragicomédias se repetem como num blockbuster americano: a mocinha é salva pelo cowboy. E então você é salvo de si mesmo. Como naqueles filmes sacados e mal feitos, a garotinha vê o garotinho e de repente num close clichê: se salvam. E a garota frágil e equilibrada recebe proteção e o mocinho forte e perdido enfim se encontra. Tudo sempre igual. E de repente Um Novo Grande Amor.
E então vocês se encontram e trepam de mãos dadas e corpos colados, como era o sexo Naquela Outra Vida agora meio distante embora presente. E então de corpos colados surge um olhar de súplica, algo como me salve estou tão perdido aqui é tão frio e escuro preciso de um norte preciso ter fé. alguma fé. fé. E dramático como um melodrama almodovariano ridiculamente inverossímil porque no fim somos todos ridiculamente inverossímeis – e ridiculamente dramático você finge ter medo, finge não querer sofrer outra vez, finge não estar pronto para o Tudo Aquilo Outra Vez. Ah, boy, é tudo sempre igual. Mas você se rende, não há escolha. Quando se trepa de mãos dadas e corpos colados – ah, não há mais escolhas. E você testa aquele corpo tão diferente Daquele Outro De Tempos Atrás e então se acostuma, se ajeita, se cabe. Não há volta, boy, é sempre igual.
E você enfim se rende aos novos sabores, novos olhares, novos quereres tão diferentes Daqueles Outros De Tempos Atrás. E então você se cabe e se vive enfim de uma outra vida que não Aquela Outra agora um pouco mais distante embora ainda presente – porque as cicatrizes assim como os resquícios dos excessos sempre estarão presentes. É inevitável, boy. É tudo tão igual que me enjoa.
Um colo
23:47 postado por Thiago Terenzi
Luzes, aplausos e toda aquela baboseira de orgulho-da-família e garota-problema-que-deu-certo-na-vida. Plateia fotos autógrafos sorrisos e programas de tevê. Tudo que todo mundo sempre quis e no entanto nada. No fim é só essa dor no peito e esse gosto de vômito na boca que nunca passa. Nunca passa, cara. No fim é esse movimento de luzes cidades e abraços sem motivo e sem sentido que nem ao menos aliviam mais a dor.
Ah, como eu queria sua vidinha sóbria, cara. Queria um porto, um lugar para deitar a dor. Um único lugar: nada de mil corpos sem identidade em quartos de hotel. Queria minha cama e meus caquinhos: meia dúzia de roupas, discos e um emprego de merda desses que nos fazem chegar em casa cansados e dormir com um beijo de boa noite. Lembra quando a gente tinha isso? Ah, a gente sempre teve tanta coisa, boy. É que o que a gente quer mesmo é esse sonho careta que no fundo todo mundo tem: rodar na roda e alugar um apartamento fodido e barato no trigésimo andar de algum prédio velho no centro e morar juntos.
Ah, eu só queria morar nesse prédio fodido, cara. Logo agora que consegui o que sempre quis – só quero o prédio. Logo agora: programa de tevê me dizendo ser grande-nome-da-música-contemporânea, dinheiro, bebida e toda essa merda que chamam de chegar-lá. Cheguei. E quero ir embora. Odeio o palco e odeio que cantem minhas dores. Ah, cara, acho mesmo é que odeio a música e tudo isso que chamam de arte. Odeio luzes aplausos e autógrafos. Odeio a loucura e os que vivem na noite.
Somos todos fodidos, repito sempre entre o pó do camarim e as luzes do show. E choro e choro e choro e me vem uma vontade estranha de fugir do palco e ir te ver. Como antes. Como sempre. E deitar no seu colo como uma menina medrosa e chorar e chorar enquanto você sussurra calma, bebê, eu tô aqui, e eu me acalmo e durmo com os olhos meio abertos como sempre dormi, e você rindo meio alto para que quem sabe eu acorde e então te sorria aquele meu sorriso charmoso de preguiça contida. Ah, boy, mas nem tenho coragem. Sou medrosa e desesperançada. Sempre com esse ar meio infeliz. Vou é subir no palco e tristíssima gritar minhas dores e ganhar aplausos encorpados – e ganhar aplausos pela própria dor.
O que queria era dizer – antes que esse show comece e eu seja empurrada ao palco e aos flashes e ao uísque e aos sorrisos forçados e aos abraços de parabéns-você-é-um-talento – ah, o que eu queria era dizer que guardei uma grana e dá para alugar um apartamento apertado no Maletta sem luxo ou coisa do tipo, mas a gente pinta, eu sei pintar e tenho um emprego em vista, enquanto isso vivo da música, componho bem, dá um trocado, tenho contatos. E você diria – e diria apenas no meu sonho, mas juro que diria, boy – diria temos que fazer economias, amor, precisamos de algum dinheiro guardado, não podemos fazer loucuras sem pensar. Morar juntos é coisa séria. Mas sou pé-no-chão, cara, sei que no fundo riria da minha cara. Morar com alguma ex-cantora fodida não faz seu tipo. Ainda mais eu e meus erros infinitos que nunca admito. Ainda mais eu que ando errando tanto e tanto e tanto.
E então eu canto porque no fundo é o que resta. Canto aos berros como que buscando alguma salvação, algum porto que me seja de direito. E quando as luzes se apagam choro e choro e choro e choro porque transformaram-me em mulher-da-noite-louca-e-multitalentosa. Logo eu que sou menina frágil e ridiculamente convencional. Logo eu que queria apenas um sorriso e um sussurro cantarolando Cazuza meio desafinado dizendo pelos cantos da boca num sorriso infantil: é que eu preciso dizer que te amo tanto.
Um telefonema
18:00 postado por Thiago Terenzi
Nervosa sob o espelho, reflexo de seu próprio reflexo, olhos fitando a si próprios – nervosa ela seguia, mansa, doída. Mas seguia. E dizia em voz trêmula a si mesma (quem sabe ao próprio reflexo) dizia, sim, vou ligar. E decidida e frágil e errante e cheia de dúvidas – como de fato são os heróis de carne e osso, se é que existam heróis – ela quis ligar. Não que antes não quisesse, mas –. Difícil dizer. Difícil dizer sobre o antes quando nem ao menos tem-se o depois. É que desde aquele dia em que algo sem nome morrera: não havia antes ou depois. Havia o desde então.E desde então ela disse num sussurro à sua própria imagem refletida, disse sim, vou ligar. E bebeu mais um gole da bebida e pensou que diria olá, gostaria de te convidar para uma festa aqui em casa, mas pensou que seria formal demais e não havia motivos para mais barreiras que os muros infinitos que já os separavam. Depois pensou em dizer oi, vem aqui amanhã, festinha só para os íntimos, porque haviam sido íntimos e intimidade, quando da alma, é eterna. Mas depois lembrou que nem haveria festa e nem havia intimidade ou amigos. Não havia restado muito além da dor e alguma bebida quente no armário entre a geladeira e a janela fechada. Sempre fechada.
Então diria oi, como vai? liguei pra saber as novidades, vai mesmo viajar? Irlanda? Europa dizem que é linda. Diria como se não houvesse qualquer abismo, na esperança de que eles tivessem de fato desaparecido – mas havia abismos. Que fazer de um silêncio sólido? Que fazer quando – porque iria – receber ao telefone o silêncio da falta de sentido?
Não havia espaço para faltas de sentido. Não havia espaço para fraquezas ou telefonemas bêbados e inesperados às três e quinze da madrugada como se nada tivesse acontecido. Não havia espaço para recuperar o irrecuperável. Eis a tragédia da vida, pensou ela entre um gole amargo da bebida e um sorriso irônico e descrente.
Ela, naquele ponto da madrugada e da embriaguez (talvez mais embriaguez que madrugada, porque nem parecia ser assim tão tarde) – ela nem sequer lembrava do que havia acontecido. Alguma briga, algum resquício de orgulho idiota, alguma imaturidade infantil; ou talvez algo grave, uma palavra irremediável – ah, como tinha talento para dizer o irrecuperável –, uma descrença sem motivo ou sabe-se lá o que mais. Não importava motivos. Nunca importaram.
Importa dizer que ela ligou – ah, ela ligaria hora ou outra da madrugada. Chamou uma, duas vezes. Desligou – ah, ela hesitaria, jamais esteve preparada para o silêncio. É que tinha bebido e a bebida poderia lhe atropelar as palavras. Depois de tanto abismo a bebida lhe falharia a voz, se enrolaria num cumprimento embolado – nunca havia sido forte para o álcool. Nunca havia sido forte. Desligou o telefone.
Aquilo
12:57 postado por Thiago Terenzi
A gente sabe, gato, a gente sabe quando começa Aquilo. Alguma bebida no copo, talvez cerveja nem me lembro, estava calor – é devia ser cerveja. Alguma bebida, algum filme cult europeu, algum carinho e alguma solidão. Alguma vontade tímida e um monte de medos e inseguranças também. Tudo muito bem maquiado naquele meu jeito de garota-sem-recalques-nem-problemas, sabe? e o seu olhar de homem-plenamente-feliz já meio embargado pelo álcool.E eu bebendo aquele copo de nem-me-lembro-o-quê que provavelmente era cerveja – a gente sempre acaba nela – e segurando o copo porque precisava segurar, sou inquieta você sabe, se não tenho nada nas mãos enlouqueço. E disfarçando a inquietude e bebendo já meio zonza e você rindo se fazendo de homem-forte-pra-bebida sem nem saber que já estava tonto. Ah, gato, a gente sabe quando começa Aquilo.
De repente aquela vontade de te ler alguma coisa, eu querendo recitar livros, Bandeira Clarice Caio Fernando Hilda Hilst – ah, Hildinha cairia bem, te diria ah, a vida é líquida, e você riria sem entender muita coisa. Mas nem disse nada, não digo muito. Devo ter bebido outro gole e você assustado me achando excessivamente alcoólatra e eu assustada sem querer parecer excessivamente bêbada embora estivesse de fato bêbada – e me fosse de fato aos excessos. E você me olhando com seus olhos de homem-plenamente-feliz embora não fosse nem feliz nem pleno, mas nem importava.
E então a gente soube entre um álcool e outro – filme na tevê, provavelmente cinema espanhol ou italiano, luzes apagadas e barulho dos carros lá fora – e então a gente soube. A gente sempre sabe quando começa. Porque naquele instante éramos nós dois sem máscaras ou teatro, nada de garota-sem-recalques ou homenzinho-forte-e-feliz, éramos sós e nus. Cheio de medos e pés atrás você disse este sou eu, e eu sussurrei alguma coisa bonita, talvez uma música, não me lembro. Talvez nem tenha dito nada, vai saber. A memória sempre nos rouba o mais importante.
De repente eu queria dizer – ah, eu e minha mania chata de sempre querer dizer. E dizia e dizia sempre em silêncio sempre sem mexer os lábios e você entendia e dizia também sem palavras fecha os olhos que assim a gente congela o instante. E a gente meio bêbado fechava os olhos e o mundo rodava e rodava mas nem tínhamos medo e eu semicerrava forte a visão para fazer do instante eternidade. Ah gato, já sou velha demais para acreditar em eternidades de modo que sabia que aquele único segundo era a minha salvação. Era aquela partícula de tempo e só. Depois viriam ódios ciúmes discussões e um monte de coisas boas mas que jamais seriam Aquilo. E depois viria as tentativas desesperadas de salvar o que já estaria morto, aquela coisa desgastante de remediar o irremediável e fazer política do amor... Mas naquele instante, naquele único instante estávamos salvos. Completamente salvos porque nós mesmos nos salvávamos.
Ah, gato, a gente sempre sabe quando começa Aquilo.
Comédia romântica
12:30 postado por Thiago Terenzi
E mesmo hesitante entre caminhos tortos tateando cego em busca de alguma calmaria que lhe fosse de direito, mesmo trêmulo e vacilante entre os prédios e os concretos de cidade-mais-ou-menos-grande de mendigos prostitutas drogas fáceis e alguma solidão, mesmo entre o frio de algum inverno de tempo-louco-de-cidade-mais-ou-menos-grande, mesmo apesar de sabe-se-lá-o-quê – ele disse: – escuta: vamos tentar. Não que seja fácil ou que consigamos – provavelmente nem conseguiremos, quem consegue? mas vamos tentar que a tentativa por si só liberta.Escuta: vamos tentar porque eu não quero me render – eu não quero nos render. Quero lutar e remar e buscar qualquer utopia perdida em alguma esquina torta que ainda não conheço. É que a gente se salva é pelo caminho – a tentativa é que salva. O final é só o final: a legenda sobe, as luzes se ascendem e pronto. Acaba. O filme acontece é no erro. A gente acontece é no erro. É no imbróglio que se vale a pena.
E então a gente despe as máscaras e tenta. De olhos fechados como tem que ser. A gente finge ter quinze anos e não ter traumas barba vícios responsabilidades pés atrás bons modos e toda essa merda que limita. A gente esquece os outros dez amores, trinta desilusões, cinqüenta trepadas inúteis entre um álcool e outro – e então a gente tenta. Acredita em fada duende papai noel deus comunismo e amor eterno outra vez.
Escuta: vamos tentar que eu te quero bem. Gosto do seu jeito perdido porque eu também estou perdido e já que não se pode encontrar o caminho – que então nos encontremos. E então a gente rema, juntos, e erra e acerta e chora e se diverte e se precisa e se descobre como fazem as crianças apaixonadas aos quinze anos.
Um porto
23:42 postado por Thiago Terenzi
Era assim: algumas cervejas no bar, duas ou três tequilas e um daqueles inferninhos imundos da cidade – um daqueles onde se encontram os que restaram. E ele restara.Os inferninhos eram todos iguais: uma porta apagada num canto deserto, dois lances de degraus melados num misto de cerveja e vômito, um balcão com duas ou três cervejas importadas e um banheiro onde se espremem os que o querem para sexo, mijo ou cheirar pó. E ele nem queria o banheiro.
Na pista – de onde estava conseguia enxergar com alguma dificuldade –, rostos sem identidade suados pela batida eletrônica ritmada comandada por um DJ que nem ao menos sabia tocar – mas tentava. Era ali, aliás, a noite das tentativas. Os corpos na pista se tentavam em busca um do outro para encarar a madrugada sempre fria. Os olhos tentavam alguma luz em meio à solidez rude dos cantos escuros. E ele tentava alguma coisa que ainda não sabia. E em busca dessa tentativa cega, estava ali: cerveja importada em mãos, sorriso vazio disfarçando a solidão e corpo se movimentando errante ao ritmo do som.
Qual o seu nome? perguntou cego a sabe-se-lá-quem e recebeu como resposta talvez um nome ou um isso importa?, nem se lembra mais. Depois ouviu-se frases soltas como gostei de você ou você trabalha ou só estuda? ou essa música é uma das minhas preferidas. Depois veio o beijo e permitiu-se então – por alguns instantes – terem-se um ao outro. Depois veio algo como sou de peixes e você? você tem um rosto lindo moro sozinho quer ir na minha casa escutar música e beber vinho? tenho alguns discos de rock e pizza na geladeira.
Depois treparam de mãos dadas com os dedos entrelaçados como fazem os casais apaixonados aos cinco meses de namoro e se abraçaram como se fossem necessários um ao outro. Fumaram um ou dois Marlboros vermelhos ainda nus e melados exaustos naquela cama de solteiro e se disseram até logo ou até nunca, difícil saber.
É tudo luz e sonho
00:52 postado por Thiago Terenzi
É que a noite é onde os que não pertencem se encontram – vento frio e gélido sobre os corpos e os rostos assustados, como são os rostos e os corpos daqueles que nos são estrangeiros. E ela, estrangeira que era, não pertencia. E habitava a noite, como habitavam aquele lugar todos os seres errantes que vagavam imundos pela madrugada.Ela, sentada às duas e vinte naquele bar-de-gente-imunda-e-estrangeira, ela: sorria. Não que houvesse qualquer instante de felicidade – embora anos mais tarde reconhecesse aquele momento como o de uma felicidade nostálgica e bonita – mas é que ali lhe era permitido o sorriso. E ela sorria apenas porque não lhe tiravam direito. É que na noite não havia direitos roubados. É tudo luz e sonho, ouviu numa música tempos atrás. E solidão, completou.
É tudo luz e sonho, cantarolou num sussurro baixinho e depois cantarolou de novo e de novo – é que aquilo era tudo o que a memória lhe permitia gravar. E repetiu incansavelmente aquela melodia turva e aconchegante porque repeti-la era maneira de se fazer do mundo de fato: luz e sonho. Apenas anos mais tarde, já velha e sozinha (como são as mulheres solteiras aos quarenta) é que descobriria a veracidade do que cantava. É tudo luz e sonho.
E de repente – porque na noite há apenas os de repentes – uma mulher que também não pertencia reconheceu-a. As mulheres estrangeiras se reconhecem pelo olhar – e pelos cabelos mais ou menos ensebados de dois dias sem lavar, porque na noite não há tempo.
- Tem fogo?
- Eu sempre tenho fogo e cigarro.
Qual delas disse o quê não importa. Nem importam os cigarros e o diálogo. É que em alguma entrelinha daquele instante elas se diziam algo de necessário. Era algo como aqui dói e sei que em você também, por isso preciso de você porque você me faz conseguir alguma coisa que nem sei. Só me deixa sentar aqui e beber uma vodca contigo que é tão difícil enfrentar a noite, cê nem imagina. Juro que quando o sol nascer eu vou embora dormir bêbada e sozinha na minha cama fria e cruel – mas por enquanto só me deixa aqui que eu te deixo também.
E ao emprestar o isqueiro a outra dizia em entrelinha senta e fica porque preciso da sua solidão. Olha, só por esta noite, vamos pertencer, vamos nos pertencer? Eu te amo porque eu quero amar mas acho que não sei – então eu te amo. Me ama também porque amar é tão bonito.
Obviamente nenhuma delas disse nada daquilo – apenas conversaram como conversam as mulheres bêbadas que fingem não serem estrangeiras. Mas em algum lugar dos seus olhares elas se abraçaram. E enquanto uma pensava em perguntar algo que lera certa vez em um livro, algo como será amar dar ao outro a própria solidão?, a outra dizia em pensamento fecha os olhos e acalma. É tudo luz e sonho.
É tudo luz e sonho.
No mirante
18:53 postado por Thiago Terenzi
Desce do carro e vem aqui. Vista linda, né? grande pra cacete, dá pra ver a cidade toda. Adoro aqui, parece que a gente é Deus, percebe? O mundo rodando lá em baixo e a gente aqui, superior, alheio a tudo. Sente o vento no rosto, gata, e fecha os olhos.Tá vendo aquela luz forte ali quase no fim do horizonte? ali é o estádio, é o Mineirão. Aquele pretume ali é a Pampulha. A cidade parece cheia de mistérios pras pessoas lá embaixo mas na verdade é só isso aqui. Simples. A gente é que complica tudo.
Tá vendo os prédios altos ali? lá é a boate que a gente tava. Parece que a cidade é grande mas na verdade cabe numa foto, vê? Na verdade essa cidade é toda assim, não sabe se é cidade grande ou pequena. Ainda não se decidiu. Às vezes acho tudo muito grande e às vezes ela me sufoca de tão pequenininha. Mas daqui de cima a gente parece ser maior que ela – e a gente é gata, a gente é. Daqui de cima a gente é o que quiser.
Não sei se você consegue enxergar mas perto daquele relógio do Itaú ali naquele prédio grandão, é por ali que eu moro. Viu? ah, deixa pra lá. Você nunca vai na minha casa mesmo, né? no máximo a gente vai se encontrar em algum boteco por aí. A cidade, mesmo sendo essa imensidão toda, é pequena. A gente vai se encontrar nos botecos da noite, gata, relaxa. A gente sempre encontra quem é da noite.
Muito louco tudo isso, né? ah, isso tudo. Olha pra você ver: neste momento eu estou inteiramente na sua mão mas a gente nunca mais vai se ver. No máximo iremos nos cumprimentar num dos botecos da noite e fazer um comentário com algum amigo do tipo “tá vendo ela ali? trepei há uns três meses”. E depois seguiremos perdidos. Mas neste exato momento eu preciso de você porque você me causa alguma coisa boa que eu nem sei explicar.
Olha, eu poderia me apaixonar por você agora neste exato momento mas não vou. Eu consigo controlar essas coisas, gata. Eu sei quando posso me apaixonar e sei evitar também. É que essa vista bonita deixa a gente meio bobo, meio apaixonado mesmo. Acontece com você também? Não, não se apaixona por mim que eu sou todo problemático. Não daria certo: eu fumo, você não. E tenho mil traumas e coisas do tipo. Além do mais você é legal e inteligente – e a gente um dia ia terminar e nos odiar mortalmente. Não, não quero mais ódio na vida, gata. Quero só amor.
Pode fumar um cigarro? sim, aqui é sempre deserto, sim. As pessoas costumam vir aqui pra trepar e fumar maconha mas eu curto ver a vista, sabe? Claro que vamos acabar trepando e se quiser eu tenho unzinho aqui já enrolado e tudo, mas eu sempre venho pra ver a cidade, pra ser a cidade. Sei que parece loucura mas se a gente abre os braços e fecha os olhos a gente acaba sendo a cidade, entende? E esta cidade é tão triste, fecha os olhos pra sentir. Ela parece com você: cheia de planos lindos mas com um milhão de traumas pra estragar tudo. Deixa de estragar tudo e seja só linda, gata. Como eu descobri seus traumas? eu sei ler olhares. Eu sou da vida, eu sou do mundo, esqueceu? Eu sei ler olhares e gestos. Se você fingir orgasmo eu vou saber, acredite. Eu moro na noite desde os treze, olhares tristes iguais ao seu eu vi aos montes.
Ah, você ainda nem sabe que é triste mas um dia descobre, pode acreditar. É inevitável, gata: você é da noite, como eu. Você não é mulher de lavar roupa e casar, você não é igual às outras. Você é da noite e ser da noite machuca às vezes – mas agora já era. Quem experimenta não volta. Quem tira a coleirinha uma vez não pode usar de novo.
Quer cigarro? daqui de cima a gente parece ser onipotente, não acha? A loucura na cidade lá em baixo e a gente aqui, superior. Quer saber? gostei de você. Não por ser você, mas acho que gostei de alguma coisa em mim gostando de você. Gosto do jeito com que você me faz ser eu. Vai ser uma pena nunca mais te ver. Mas enquanto a gente estiver trepando eu vou fechar os olhos e congelar o instante comigo. Às vezes faço isso: capturar os instantes.
Tô ficando meloso e repetitivo, né? mas é que a gente vai ficando velho e fica meloso e repetitivo mesmo. É inevitável. O céu tá ficando claro, vê? é o sol nascendo. É lindo, olha. É tão bonito que vou me permitir te amar só pra noite ser perfeita. Depois eu te esqueço porque não vale a pena tentar ser o que não somos. Amanhã a gente se esquece daí só vai sobrar uma lembrança gostosa de um dia perfeito. Vai ser legal.
Mas neste instante eu tô te amando, gata, de verdade. Me ama também só até o sol nascer por completo. Agora me abraça e sejamos nós dois.
Nós dois.
Mas há a vida
18:12 postado por Thiago Terenzi
E então, num dos de repentes de viver, ele enfim percebeu e sussurrou a si mesmo num sussurro baixinho de segredo revelado, “então isso é o fim?”. Casa vazia, escura; rostos congelados, silêncio gritante. Então isso é o fim?A cama, deserticamente vazia, hermeticamente incompreensível – ah, a cama, banhada pelos raios do sol-de-ressaca – a cama denunciava o fim. A garagem vazia – insoluvelmente vazia. O dedo recém liberto ainda marcado pela ausência presente da aliança. Os copos ainda sujos de vinho barato sobre a bancada da cozinha. Os corpos ainda sujos pelo gozo cortante da madrugada. O beijo quase dado ainda compunha o ambiente irritantemente comum daquela manhã. Era um dia irritantemente amarelo. I-rri-tan-te-men-te.
- Então isso é o fim? – sussurrou novamente para sei-lá-quem ouvir.
E então abriu a geladeira: ainda havia metade daquele vinho barato travestido em vinho tinto seco de bom tom. Logo ele que nunca gostou de vinho. Bebia pelo bom tom. Trevestia-se pelo bom tom.
E então encheu o copo e bebeu: era álcool, foda-se. E então repetiu a si mesmo pois repetir fazia daquilo coisa palpável, “então isso é o fim?”. Porque só o palpável era engolível – e era preciso engolir os de repentes como se engolia aquele vinho barato de bom tom: em goles secos e gritantes.
Foi quando percebeu que nunca gostara de vinho – e odiava bons tons. Queria mesmo era beber vodca e escutar Raul Seixas e depois vomitar na privada do banheiro do apartamento e dormir com o hálito azedo de cigarros e enjôos. Mas bebia vinho e ouvia Caetano cercado de gente estranha e comentários inteligentes. E, se queriam saber – e provavelmente nem queriam –, ao contrário dela, ele não era comunista nem marxista nem qualquer outro ismo ideológico. Na verdade, estava era pouco se fodendo pra política ou qualquer besteira do gênero. Aquele papo de igualdade, alienação e direitos do proletariado era só vontade de trepar porque, antes dela, não trepava há três meses mas agora nem importava mais.
Depois veio a paixão. E os vinhos, os Caetanos, os Kafkas, os marxismos e todo o resto. Justo ele que só queria ver os jogos do Cruzeiro e comer McDonalds às quatro da manhã só porque amava McDonalds e qualquer outro lixo plastificado. Mas abriu a geladeira outra vez e teve nojo daquela comida natural. Se era então o fim, por que comida natural na geladeira? Por que diabos comida natural?
Mas então lembrou que a comida natural e os discos de Caetano e os vinhos de bom tom eram porque amava, apesar de. E lembrou que essa coisa gritante e serena que chamam de amor era maior que os Caetanos e os ismos ideológicos – e então o ódio se foi.
Depois de meses de trepadas sem sentido e cocaína barata foi que descobriu que o ódio é saída dos fracos. E então, - não antes de muitas lágrimas – aos poucos, num de repente longo e doído, a dor se foi.
E então sorriu de um sorriso sincero de quem enfim compreendia o fim. E compreendeu que compreender era aceitação serena. Era vasto, bonito. Sem dor.
E percebeu, enfim, que aquele era simplesmente: um fim. Simples, triste e bonito como todo o resto. Aceitou – sereno – e viveu os começos que ainda viriam.
Ensaio sobre o verdadeiro amor
00:32 postado por Thiago Terenzi
Acalma-te! Dá-me a mão e te acalma. Tira o olhar de choro e te levanta – que a vida é de estar-se em pé. Firma os dedos trêmulos e anda. Sem medo, anda que o mundo é de se arriscar. Apesar de.Pois em ti – ah, em ti não há ódio. É que em ti só há coisas bonitas, lembranças e saudades. Em ti há o verdadeiro da coisa – pois só o verdadeiro da coisa é incapaz de travestir-se em ódio. E em ti não há ódio, apesar de.
Tu, forte que és, não fez da dor um odiar-ao-outro, que é maneira fácil de fugir do choro. Tu não! – ah, tu, que aceitas a dor com carinho materno e diz-se a si mesmo palavras sem rancor; escuta: acalma-te e dá-me o corpo desprotegido à procura de afago. Dá-me que te protejo como mãe. Deitas sobre este colo e dorme, que a noite passa. A vida passa. O ódio passa. Apenas o verdadeiro permanece.
Deita e dorme que a felicidade logo vem.
Diálogo
23:03 postado por Thiago Terenzi

- Mãe, porque viver dói tanto?
- Onde é que está doendo?
- Em algum lugar acima do peito, abaixo do pescoço. Perto de onde fica a alegria.
- Que dor é essa, filho? desde quando você dói?
- Eu me dôo todo, sempre, mas é que dói baixinho. Faz silêncio que dá pra ouvir.
- Ninguém ouve a dor, filho. Se não quer ir pra aula, não vá. Não é certo inventar doença.
- E como faz pra desinventar? é que dói e eu não quero mais doença.
- Onde é essa dor?
- É lá dentro. Perto de onde fica a alegria. E aí eu não consigo ser alegre. Como faz pra ser alegre?
- Você é feliz, filho. Você é jovem, é criança, então é feliz.
- Mas, mãe...
- Quê?
- Felicidade dói?
- Escuta: não há dor nenhuma. Você é novo. Gente nova não é triste. Então não há motivos pra dor no peito.
- Não é no peito...
- Não importa. Não existe esse lugar que você falou. Alegria não tem lugar pra ser.
- Então a gente é alegre onde?
- Como onde?
- Em que lugar do corpo a gente é alegre? Acho que me dói é nesse lugar.
- Quer saber: quer remédio pra passar a dor? Tem Novalgina na cozinha.
- Mas e se a Novalgina me fizer também passar a alegria?
- Novalgina é pra dor, filho. Não é pra alegria.
- Mas é que minha alegria é tão miúda... que às vezes parece doer.
- Papai e mamãe te amam, filho. Então você é bem alegre, é feliz. Quem tem amor de pai e mãe é feliz. Simples.
- É que eu achava que felicidade era coisa grande. É que todo mundo quer, então eu pensava que era maior...
- Pois então é bom você deixar de querer demais do mundo. As coisas nunca são como parecem ser.
- Mas é que isso de ter de ser feliz me traz medo. E se eu nasci errado? acho que nasci faltando a felicidade. Por isso dói.
- Escuta pela última vez: você nasceu perfeito. O médico falou. Ele sabe das coisas.
- E essa dor fininha que parece não ter fim?
- Criança não tem dor fininha perto do peito! Isso é coisa de velho com veia entupida.
- Então acho que eu não sou mais criança.
- É sim! Olha, felicidade é isso que você está vendo. Não existem contos de fada. Não espere tanto do mundo. A gente tem que se conformar com um monte de coisas. Você é normal. O mundo é assim mesmo e a felicidade é isso aí. Nada é o que desejamos ser.
- Mas é que ser feliz me dói tanto...
Dignidade
20:24 postado por Thiago Terenzi
E o principal: nem por um instante ela chorou. Ficou ali com seus olhares anestesiados, rosto plastificado. Mas a face continuou – e continuaria sempre – seca, sem qualquer sinal de choro. Não que lhe faltasse motivo ou dor, nada disso: era que o choro borraria a maquiagem. E era preciso manter a dignidade, nada de escândalos cinematográficos – ah, eles estão tão fora de moda... –, é que era preciso a dignidade acima de tudo. Era juntar os cacos, recolocar o barquinho na água e ir. Ir.Conto de Fadas
14:12 postado por Thiago Terenzi

Eu também tenho medo do escuro – mas como já não sou menino, disfarço. Ele não: com uma coragem indizivelmente superior à minha, o menino permitia-se ao medo. É que era necessária uma bravura heróica para permitir-se a certas coisas. E ele – ah, ele não sabia disso – mas era herói. Não que lhe fosse grandioso ser herói. Não era. Não há grandiosidade na solidão. Mas é que ao permitir-se ao medo, o garoto fazia algo raro: estava sendo ele mesmo. Sem máscaras, sem esconder as próprias fraquezas: simplesmente vivia.
Decerto que ele pouco importaria se, para findar-lhe a solidão, fosse necessário também abdicar da liberdade. Mas é que a solidão lhe era característica inata – o que fazer? o que esperar de um menino sozinho? Certas vezes ele dependurava-se na janela da sala – que tinha vista para a rua – e esperava as crianças vizinhas chamarem-no para fazer-qualquer-coisa. Nunca chamavam.
E ele sabia que o mundo era por demais perigoso: não se podia estar só. O que fazer quando, anos mais tarde, a dor lhe doesse? suportaria sozinho a vida? justo a vida que era tão vasta, como enfrentá-la só? Era preciso ter para quem ligar quarta-feira às quatro da manhã – e mais: era preciso ter com quem beber garrafas de vodca e vomitar a dor. Era necessário ter com quem discutir inutilmente Nietzsche ou Lacan numa mesa de bar ou sorrir enquanto constata-se a fragilidade da vida do outro – era imprescindível ter com quem dividir o cigarro ou a dor. E ele não teria nada disso...
Não que já soubesse, garoto que era, dos perigos da vida futura – mas é que alguma coisa-sem-nome-nem-rosto lhe dizia em sussurros: é necessário ter alguém que... (e então vinha o silêncio). E apenas anos mais tarde é que descobriria que era preciso que o telefone tocasse sexta-feira à noite para livrar-se da madrugada fria.
Mas desde muito jovem o garoto sabia que o telefone jamais tocaria. Ele era assim: um menino sozinho. E então inventava fadas e dragões num mundo que lhe era particular – e lhe era também verdadeiro. O menino nunca se apegara à realidade concreta das coisas, de modo que lhe era fácil criar um mundo de fadas e chamá-lo de real.
E então quando o frio doía bastante e o escuro parecia ser inviolável – ah, daí ele sentia todo o calor das fadas lhe proteger. E elas eram tão iluminadas que mesmo naquele escuro completo não havia o que temer. É que as fadas – e também os dragões e os duendes – eles entendem o medo. E ao menino bastava o entendimento. As criaturas fantásticas sabiam que para a dor cessar bastava o abraço quente e o olhar dizendo dorme-que-passa. E então o garoto dormia. Não era necessária uma única palavra: bastava-lhe o abraço.
As fadas e os duendes e os dragões são criaturas incríveis: eles simplesmente entendem. E mudos – porque não há sequer uma palavra a se dizer –, abraçam. É que no fim o garoto buscava apenas o entendimento e não a palavra. Ele buscava o abraço. No fim as palavras haviam sido todas em vão – porque as palavras são falhas e são de fato todas em vão. Ele queria o não-verbal, o espaço vazio entre as letras.
Mas então o menino cresceu e deixou de acreditar nos contos de fadas.
Para seja-lá-qual-direção
13:30 postado por Thiago Terenzi
Vai e seja feliz. Vai e tenha uma vida bem bonita, que eu me tenho também. Não: eu não tenho nada, nem você terá. Mas vai e seja feliz, que a tentativa liberta. Vai e siga um caminho bem florido, que eu sempre estarei aqui. Vai sem medo, olhar altivo e forte, vai com teu sorriso e teus amigos.Vai que a dor de agora é coisa pouca, passa – vai passar. Levanta e te seja feliz, que eu desejo mil coisas bonitas. Desejo um sol bem bonito num jardim lindo com uma grama verde e um lago límpido, desses que em cidade grande não tem. Desejo você no jardim deitada sob a árvore ouvindo músicas de liberdade. Desejo que seja primavera e o clima esteja bom. Desejo um clima sempre bom.
Vai que eu te quero só coisas boas. É que o nosso jardim morreu e nos perdemos em meio à morte. E não há como nos acharmos. Não nos somos nós dois. E não há nada mais autodestrutivo que tentar sem fé. E não há fé.
Vai e te torna feliz de novo. E um dia, quem sabe, a gente finge que é dezembro e finge ser reveillon e eu pergunto se queres vir aqui, que aqui tem cerveja e tem vinho também e que daqui dá pra ver os fogos bem de perto da janela e que eu até faço uma comida e alugo um filme desses de comédia romântica em que em meio a tantos desencontros, no fim, eles terminam juntos. E então você responde que não sabe, que combinou com amigos um reveillon num clube qualquer, mas que também nem quer tanto sair com eles. E eu insisto e você topa e a gente se vê pela primeira vez com uma sensação estranhíssima de que já nos conhecemos antes e que temos uma vida inteira em comum. Mas deve ser apenas impressão nossa, eu digo. Eu sempre tenho a impressão de já conhecer as pessoas.
E então, quem sabe, nesse outro reveillon, os planetas se alinhem em seja-lá-que-lugar e os astros apontem para seja-lá-qual-direção e a gente seja feliz.
A ausência de
18:59 postado por Thiago Terenzi

E o homem, perigosamente pálido, levantara da cama. O sol quente, sempre quente, queimava o quarto sempre àquele horário. Ele até queria comprar cortinas e espalhar pela casa e dizer adeus de vez ao sol, mas é que nunca saía do apartamento, quando saía não lembrava de comprar coisa alguma. Lembrou é de ascender o cigarro, Marlboro vermelho em jejum, puxou o ar com voracidade, engoliu a fumaça, gosto de nicotina na garganta, depois assoprou e viu aquele ar cinza impregnar o carpete já meio amarelado queimado nos cantos. Veio à boca aquele gosto seco de ressaca, aquela sensação de boca encardida. Fumou outro cigarro e ouviu Janis no vinil.
Depois preparou a bebida: duas pedras de gelo e uísque até a borda. O gelo era mais pelo barulho – o tin-tin-tin da pedra no copo tinha lá seu glamour. Então fechou os olhos e imitou a cantora fazendo em falsete a voz rouca gritando “come on and cry, cry baby, cry baby, cry baby”. Abaixou o volume para ver se o telefone tocava, pensou que um amigo poderia ligar, perguntar como estava e chamar pra encher a cara no fim de semana que teria festa na casa de não-sei-quem e que era só levar dez latas de cerveja que a vodca seria de graça – mas o telefone nunca tocava. Nunca. Então ascendeu outro cigarro, o maço estava acabando, restava uns dois ou três. E então ascendeu e fumou compulsivamente, naquele mesmo ritual voraz de engolir a fumaça. O gosto de ressaca ainda secava sua boca.
Em meio ao tédio, pensou que poderia ligar para uma amiga e falar “gata, vamos beber hoje? É que eu tô com saudades e preciso de amigos”. E então ele seria sincero e diria que nem gostava tanto assim dela, mas é que não restara muitos outros. “É que é todo mundo feliz e eu aqui com essa dor no peito, essa coisa atravessada na garganta. Daí lembrei de você que sempre foi meio doída e resolvi ligar”. E então ela toparia e bateria àquela porta às oito e levaria uma garrafa de vodca meia-boca para misturar na coca. Eles chorariam juntos e depois trepariam uma única vez porque no fundo nem havia tanto tesão assim. Depois dormiriam nus, cada um no seu canto, até dar três horas da tarde e o sol, maldito sol, expulsá-los do sono.
Mas então o homem lembrou que nem tinha mais o telefone dela, que perdera o celular numa noite qualquer, provavelmente bêbado. Lembrou que não tinha o telefone de ninguém. Franziu a testa tentando buscar na memória números ou e-mails mas foi em vão. Decidiu comer alguma coisa, estava com fome. Cheeseburguer de microondas, tudo artificial. Ligou o aparelho, colocou o hambúrguer, um minuto e vinte. Encheu um copo com coca porque odiava comer com álcool. E comeu.
Depois ainda bebeu o resto do uísque, fumou os últimos dois ou três cigarros e ouviu Janis depois Caetano depois Cazuza depois dormiu.
O Espelho ou A gente é assim mesmo ou Segura a minha mão, por favor ou Sobre algum Fim ou Me ensina alguma coisa ou Grita que eu me grito também ou ,
04:41 postado por Thiago Terenzi
A busca de
16:48 postado por Thiago Terenzi
Se algo de aprendizagem restara àquela garota, este era que: ser mulher dói. E doía-lhe. Doía-lhe de uma dor claustrofóbica de impossibilidade contida. Era-lhe uma tristeza resignada de o-mundo-é-assim-mesmo. E o mundo lhe era assim mesmo. Mesmo com seu olhar decidido e sua coragem plastificada travestida em mulher pós-moderna – ah, mesmo com o rosto ao vento, o mundo doía.E se algo ficou de tudo isso – por Deus, se algo ficou foi uma compreensão mutua que dividia com todas as mulheres. Ficou a compreensão daquela dor de não pertencer, de estar num não-lugar. Talvez isso a fizesse mulher. Talvez isso a fizesse mãe, porque das mães cobra-se o entendimento. E ela entendia. O que fazer de uma mulher cuja dor lhe é revelada? melhor seria a dor oculta...
E dele, do homem, ficara somente a dor... ele – justo ele – trouxera à garota o entendimento. É que ser mulher era assim mesmo: havia a dor do não-poder. Não lhe era permitido usar certas roupas nem a vaidade de mostrar-se em fotografias nem a dignidade de ter um trabalho. Até como portar-se num banheiro fora-lhe ensinado. E era preciso lutar para simplesmente ser. Era preciso esquecer – e provar o esquecimento – do passado, das noites de bebedeira, das trepadas imorais – mulher, para não escapulir do gênero, mulher, dessas de verdade, não bebe nem usa drogas nem dá no primeiro encontro nem trabalha nem se mostra em fotografias de Orkut nem usa roupas que lhe deixe a beleza à mostra nem vive se da vida não bastar-lhe o homem.
Então – então diz-me, por favor: como tornaria-se, a mulher, ela mesma? como tornar-te ti mesmo se o ti mesmo lhe é proibido? Como sentir-se em casa numa casa que nunca lhe pertenceu? A ela, como mulher, restou tentar caber-se aos moldes. Tentou – juro-te que tentou. Não coube.
Restou-lhe a dualidade feminina: a máscara ou a dor.
Fúria
13:45 postado por Thiago Terenzi
– Eu te amo – disse a mulher.Mas não amava nada. Estava tudo errado, tudo. Tu-do. Confundia-se amor e egoísmo e esquecia-se do amor-próprio, que é necessário. Achava-se que amor era querer-o-outro-pra-si, mas não é, cara, não é. Esquecia-se que amor é muito mais querer-bem-ao-outro pura e simplesmente. Pensava-se que querer bastante e com urgência fosse amor. Estava tudo errado, cara. Media-se amor pela urgência, mas media-se a coisa errada. Amor é de graça, juro. É sereno, calmaria. O resto é egoísmo destrutivo, ciúme, possessividade.
– Amou coisa alguma – respondeu – você me foi apaixonado, gata, e é. Passa o cigarro, por favor, que quero a fumaça.
E fumou. Fumou. Fumou até que a fumaça o engolisse e bebeu seu copo de vodca com coca num só gole – bebida queimando a garganta naquele gosto insosso de vômito preso na boca. Encheu novamente, mais vodca que coca, naquela cor clarinha, quase transparente. Forte pra caralho. Bebeu tudo novamente e quis mais. Quis era pegar o carro às quatro e quinze da manhã e dirigir sem rumo, bêbado, e quem sabe parar numa blitz da Lei Seca, desacatar dois policiais, vomitar em outro, resistir à prisão e se foder.
E, no fim, iria ela num desses inferninhos sujos da cidade, em que as pessoas fazem sexo e cheiram pó enquanto toca rock de péssima qualidade e iria beijar a boca de outros caras sujos que freqüentam lugares sujos e bebem bebidas sujas. E beijaria sem vontade um desses caras, só por beijar, o que é ainda mais imundo e sujo e cruel. Estava tudo errado, cara. Tu-do.
– É amor porra nenhuma, que amor é altruísmo. Deixa eu te ensinar, gata: paixão que é urgente, quer-se a pessoa só pra você o tempo todo, prefere-se isso ou morrer. Paixão que é avassaladora, que não pensa nas conseqüências e é extremamente egoísta porque sufoca o outro pra te fazer bem, gata. Mas mesmo assim ela é necessária, é intensa. O problema é que paixão um dia acaba. Sobra o amor, então, que é a vontade serena de estar junto, que é aquela sensação de segurança quando vê o outro. Como se nada mais faltasse. É sereno, calmo, constrói ao invés de destruir. E disso, gata, será que tem alguma coisa aí?
E então ela chorou, imunda cheirando a cigarro e suor de outro homem. Chorou como uma criança, por horas e horas. E ele fumou outro cigarro e depois outro e bebeu a vodca. E percebeu que aquele choro lhe embrulhava o estômago. Estava tudo errado, cara, tudo. E desejou com extrema raiva estar numa boate e beber o mundo e trepar com três mulheres diferentes ao mesmo tempo, mas no segundo seguinte lembrou que isso era egoísmo, que era isso que matava o amor e que matava os dois. Lembrou que essa dor de agora não era o amor doendo – o amor doía, mas o que se sobrepunha era a raiva, que é egoísmo.
E então, cansado do mundo por hoje, dormiu.




