O compositor - por Thiago Terenzi
02:24 postado por Thiago Terenzi

Ele cantarolou displicentemente a melodia por longos minutos sem notar que estava sendo ouvido e viu-se, então, em seu momento mais necessário.
E a melodia era tão estranhamente bela que parecia o instante repetido ao infinito. Os acordes se entrecortavam com tamanha voracidade que nos perdíamos entre os compassos e semitons.
Pois era ele e o violão, que era o seu instrumento-útero. E a verdade da música só poderia ser percebida em seu momento-criação – todo o resto era tentativa de enquadrá-la. Apenas aquele instante – o instante primeiro – era importante. A arte estava ali. Todo o resto era industrial.
E as outras tantas vezes que a canção seria repetida em computadores e rádios pelo mundo seria apenas uma tentativa de capturar o instante com os dedos. E os arranjos e produções e modificações que a música sofreria antes de ser gravada seria apenas para escondê-la de si mesma – pois a sinceridade está no momento-criação.
E ele se viu como o poeta que termina o soneto em rimas alternadas. Tão logo findou-se a poesia, perdeu-se o sentido – pois a essência do ser é o estar sendo. Os meios se auto-justificam – não há de se buscar qualquer sorriso póstumo. A arte é por si só. É.
Tão logo o cronista dá seu ponto final, o escrito se torna inútil. Morrem ambos: o autor e a obra. Obra acabada é obra morta. Apenas o instante em que ambos se alimentam é necessário – após o parto, mãe e filho morrem para o mundo.
É que viver é processo inacabado. É imperfeição – como a melodia que desafina em tons agudos; como a nota mal tocada que ressoa pelo traste do violão. E querer perfeição é morrer – é que plenitude e vazio é coisa única. Prefiro estar-me sendo.
E sem notar que o instante se passara, ele gravou a melodia em seu pequeno gravador. Esgotou-se, então, a arte.
A Liberdade - por Thiago Terenzi
01:27 postado por Thiago Terenzi

E então adormeceu e, pela primeira vez, foi-se ela mesma: olhos fechados sob uma leveza transcendental de criança inocente e corpo em pele alva. O rosto sereno era de sinceridade aspergida – era de um viva exclamado por estar-se nua de alma.
Ela dormia em sono profundo – pois só assim era possível ser sincera. Se os olhos se abrissem, perder-se-ia a inocência. É que inocência sincera dispensa máscaras. E estar-se viva já era mascarar-se em trajes plásticos. Travestida, ela abria mão da sinceridade para viver.
Mas agora, de olhos fechados, ela não vivia – dormia. Abstinha-se do papel de ser mulher para apenas ser; livrava-se da obrigação de perdoar para perdoar-se. E estava próxima de Deus por aproximar-se de si mesma. Era autônoma e tão livre que a liberdade lhe parecia pouco.
De pura sinceridade, amou o mundo de um amor inédito – não de amor cristão, que soa como dever, mas de amor gratuito. E recebeu em troca o conforto do travesseiro roçando-lhe o rosto – e bastou.
Sorriu e foi, enfim, feliz – e a felicidade não era aquela contrária à tristeza. Era palavra sem antônimo. Era um feliz que existia não para opor-se ao triste. Apenas existia. Estava lá – e ela nem queria saber os porquês.
Apenas nós, os incompletos, buscamos respostas – ela não. Em seu sono profundo, ela apenas acreditava. E por acreditar, não havia perguntas (nem ao menos havia pontos finais ou exclamações). Havia o signo – livre de significado, significante e significação. O signo apenas estava lá e ela o respeitava – e o amava como parte de sua natureza.
Plena de si, pensou estar morta – a tênue linha que separa vazio de plenitude é tão insignificante que arrisco-me a dizer que são sinônimos. Mas ela, esperta, muniu-se da certeza de estar viva – e, então, estava. Antes de acordar, porém, abraçou o travesseiro num abraço a si própria, bradando um “eu te amo” tão sincero que nunca chegou a efetivamente dizê-lo.
Amando-se em sua própria inocência, por fim, acordou. E então travestiu-se em suas máscaras habituais e jamais voltou a ser-se si mesma.
Deus - por Thiago Terenzi
15:55 postado por Thiago Terenzi

E então ela acordou de um sono necessário sob o único raio de sol que iluminava seus olhos. Levantou-se e banhou-se de uma preguiça inocente e molhou seu rosto: pele alva, traços duros de um sabe-se-lá-o-quê cativante, que nem consigo explicar.
Sobre o espelho, fitou seus próprios olhos e descobriu-se.
Fingia-se de um fingimento artificial que herdara numa rua qualquer – mas, desde então, soube-se num saber particular e bastou. Sorriu. Rendeu-se por fim a si mesma e iluminou-se de uma alegria imperceptível – porém intensa.
É que descobrir-se em si mesma era torna-se estrangeira – e ela tinha medo. Era ir além de um além não navegado e era perigoso: ilimitando-se, talvez, poderia parecer limitada aos olhos outros. E ela fora além de si ao olhar-se no espelho – além de seus próprios olhos.
Pois seus olhos negros de ressaca pareciam esconder o que há de mais humano. Como se o “torna-te quem tu és” da alma se travestisse em felicidade cristã. Como se o que há de melhor fosse ocultado pelos certos plastificados.
Era mesquinho os olhos – de cigana obliqua e dissimulada. Eram olhos de Capitu. Pedaços de uma moral recortada que cobriam a retina. Não enxergava para não ser enxergada.
Ela, porém, fora além da retina e não havia mais caminho a seguir. Ensaiou-se em passos novos, mas não se importou: no além-mundo em que habitava, nada importava – ela era completa por estar ali.
Agradeceu, então, seu estado de graça rezando a um deus que no fundo era ela mesma. Orou-se por longos minutos e sentou-se de frente ao espelho de mãos dadas às próprias mãos.
Abraçando-se por misericórdia própria, teve medo. Pediu-se em oração a coragem necessária para estar ali, só, em sua própria alma e enfrentou, solitária, a dor de existir apoiando-se em si mesma – ser completa exigia-lhe muito mais do que parecia suportar.
Como que num rito de iniciação, molhou seu rosto novamente em água corrente de torneira e batizou o vazio de plenitude e de amor próprio o que era deus. Orou-se em línguas outras o que nem pôde entender – e soube, então, que o não entendimento era benção edificada.
Antes, por fim, de lembrar-se do mundo que a esperava, guardou em segredo sua alegria particular, que era a verdadeira. E, após um amém sussurrado a si mesma, trancafiou sua alma por detrás dos olhos negros e viveu.
Quente e Profano - por Thiago Terenzi
16:29 postado por Thiago Terenzi
Fechei os olhos e respirei a vida dos mortais – e, há tempos, vivia eu uma vida que é além-humana. Vivia em completa plenitude estática, mas hoje, enfim, respirei o ar que é de se respirar e senti dor. E como é bom senti-la. Como é bom ser humano. Quero é o dinâmico.
Foi tão bonito e tão doloroso... sei que não entendes, mas nem é necessário. É que às vezes a vida de mentira é mais real que a mentira em carne e osso. Viver do que é vivível nos faz melhor – e eu quero tanto que chega a doer. Quero o que me trás vida – vida esta que é de eufemismos.
E que volte o cheiro de cigarro e o corpo em branco e preto; que volte a insegurança e a luz que cega a visão – que volte o mundo, pois preciso de fraquezas. Ser perfeito consome mais do que posso suportar – logo eu que mal suporto a dor.
É que perfeição remete à limites – a perfeição é pequena. Não se pode ir além, pois chegaríamos, então, na imperfeição. E não quero os limites do que é perfeito. Não quero a mente limitada dos que fazem juízo de valor. Se pudesse, acho, seria amoral – a palavra é tão bonita, lembra amor. Quero é seguir uma ética interna que nem consigo racionalizar – e não racionaliza-la é o que a torna especial.
E vivi, como dizia, da vida não-racional que sempre busquei e tive medo. E pude voltar a escrever. É uma espécie de medo-desejo que é combustível da alma. É uma humanidade que falta à luz dos olhos – quero, então, a luz dos olhos.
Mas, por favor, traga-me os olhos aos poucos – é que estou tão acostumado com a escuridão, que luz me cega.
Torno-me, então, humano ao avesso – mas humano, por fim. Cego, mas por escolha para poder sentir-me mais. Torno-me, pois, um eu mesmo que nunca fui. E temo ser este o que sou de verdade.
É que é da dor que me faço o que é existível. Renuncio à perfeição para ser-me eu mesmo. Sou é o vidro embaçado que não vê o exterior – quente e profano. Quero, então, o que há de mais quente e profano no corpo: a carne – pois alma já não me alimenta mais.
Bebi do além-mundo e voltei. A perfeição me recalca – não a quero mais.
Alegria Particular - por Thiago Terenzi
17:10 postado por Thiago Terenzi
A felicidade, por exemplo, me vem em gotas. Eu, que não sou bobo, guardo todas na palma da mão. Alegro-me nas gotas pequenas – e essa alegria é maior que todas as outras. É que vem de dentro e é tão simples e curta e intensa e contida – é como o sorriso ácido de quando se lê Machado de Assis.
Hoje, por exemplo, sorri de alegria instantânea – dessas que duram apenas milésimos de segundos – um sorriso quase sem motivo. É que é bom conseguir capturar o instante e congela-lo. É que alegria instantânea é tão rápida que só se torna alegre na lembrança. E eu ri por motivo bobo: porque decidi fazer desse texto algo estranho (adoro tudo o que me é estranho). É que tanto faz colocar o ponto final aqui ou nas próximas linhas – o que precisava ser dito já foi.
Estou sozinho em casa e a solidão me alegra os ouvidos. Todos se foram; eu fiquei. E estar só, às vezes, é experiência transcendental. É quase um louvor sabe-se lá a quem. É a felicidade inconseqüente – e é tão sublime que quase parece tristeza. Mas não é! descobri há pouco: não é!
Pensam, os outros, sempre em opostos – abandonei esta idéia. E então descobri a não-tristeza que é alegria. Carrego agora lágrima e riso, juntos – e os opostos se parecem tanto! Antônimos são na verdade sinônimos travestidos. E me diz, é alegria ou tristeza? Segredo...
Porque o segredo me trás uma felicidade silenciosa sobre a qual não quero falar. Assumir a felicidade-instante é esgota-la. E tenho medo de perde-la (tenho medo de tanta coisa).
Tenho, inclusive, medo da liberdade – por isso me sou livre em segredo. Ela me é necessária – mas olhar para os lados e encarar o vento sem rédeas é difícil – exige uma responsabilidade para a qual não estou pronto. Às vezes finjo estar preso a alguma coisa assim como finjo uma tristeza inexistente só para ser-me mais completo. É tudo de mentira, mas às vezes esqueço que finjo e tenho medo de verdade.
Às vezes, enquanto inspiro e espiro, tenho medo de expirar-me a inspiração. São palavras tão parecidas e tão perigosas que nem sei se inspiro ou inspiro-me. É que me confundo nas palavras e não sei como usa-las. Como transcrever a felicidade muda que é tristeza abençoada? É tão particular que faço das palavras minha casa...
ENSAIO SOBRE O FIM – Por Thiago Terenzi
23:59 postado por Thiago Terenzi
Quarto escuro; vento gelado; cabelo ao fogo; olhar vidrado; resquícios de alma – descrevo por nada mais poder fazer. Queria ter algo a falar – mas não, apenas sinto e não sei explicar o que. Por isso descrevo como se bastasse. Descrevo flashes perdidos, pois o que sinto não sei escrever.
Talvez tenha eu vivido a vida que é de se viver por muito tempo e me esquecido das letras. Não vejo nelas nada mais familiar – embora ainda me sejam necessárias. Me enrolo a cada frase mal feita e me perco na falta de o que dizer. Quer dizer, tenho tanto a falar que me dói o peito uma dor agonizante – mas como falar?
Na verdade, sempre enganei a todos: nunca soube escrever. Falam sobre textos como uma mensagem a ser decodificada. Falam de gêneros, sintaxe e gramática. Falam de planejamento, início-meio-fim. Uma mensagem não decodificada, dizem, não cumpre seu papel – mas e eu? eu nunca quis ser entendido. Como ser se nem me entendo? Escrevo tosco e sem sentido apenas por necessidade. Mascaro-me por trás de próclises e mesóclises mal usadas e dizem que escrevo bem. Sou uma farsa.
Escrevi para o jornal uma crônica vazia e editaram meus erros. Substituíram meus pronomes mal usados e minhas vírgulas em excesso: mataram minha alma. Sou ruim e quero ser ruim – quero todos os erros pois escrevo de olhos fechados o que há de mais verdadeiro
Mas o que escrever? Sinto que não tenho muito a dizer. Escrevo projetando-me e quero ir-me além. Escrevo preocupado em fazer sentido e não há nada mais limitante. Quero ser-me por assim ser. Quero bastar-me.
Hoje fez calor e agora faz frio. A noite é bonita da janela – tem estrelas e é lua cheia. Mas isso não me basta. E quero bastar-me.
Fui feliz por viver a vida, mas senti falta do vazio e voltei. Acho que tenho medo de ser feliz. A felicidade é difícil. É para poucos – só quem experimentou pode dizer. Talvez eu goste de estar sozinho: ter demais é perigoso e não sou tão grande assim. Quero é ser pequeno.
A solidão é poética. É como o cigarro, que também carrega poesia. Ambos são tristes e a tristeza é cinza. O mundo diz que temos que ser felizes, mas eu não: carrego bem lá no fundo uma tristeza que levo em segredo. É bem lá no fundo, mas é o bastante. É que no fim das contas estamos todos sozinhos, mas fingimos o contrário.
É que no fim das contas estamos buscando algo que não sabemos o que. Meu palpite é que buscamos uma busca sem fim. Mas talvez não haja fim, os meios se justificam por si só.
Sou o meio, mas ensaio um fim que nem sei se quero ter. Não há começos nem finais: há apenas o instante que deve ser cristalizado em palavras – mas, por favor, diz-me como.
Textos do passado [3]: "O Vazio Sem Nome"
23:36 postado por Thiago Terenzi

Após algum tempo sem publicações, penso em postar o último texto da série de "coisas" que escrevi ao longo da vida.
Segui, como talvez seja fácil perceber, uma ordem cronológica. "Espelho Seu", de 2004, "O Velho e o Espelho", de 2005 e agora um texto escrito em 2006, com 16 anos.
Não postarei textos de 2007, uma vez que o blog teve início nesse ano e basta alguns cliques para encontrar vários textos.
Quis criar neste blog um caminho - abandono, aqui, qualquer idéia de progresso - ligando todas as minhas fases através do que escrevi.
Faço isso por mim mesmo. Quero, talvez, descobrir-me em eus passados.
O VAZIO SEM NOME
O pior é quando chega a noite. Fria e escura. Acendem-se, então, as lâmpadas artificiais. Mas elas não são de verdade, são amareladas e frias. É inevitável, assim, como se a própria noite convidasse, encarar-se no espelho. Este reflete não a nossa luz, mas sim uma luz qualquer, fria e escura.
Então, nos encaramos e olhamos diretamente para os nossos próprios olhos. Neste momento, percebemos que apesar de tudo o que fizemos, nada mudou. Nada muda. Nunca. Vivemos toda uma vida para no fim, tudo ser
Talvez a falsa ilusão de que podemos mudar alguma coisa seja necessária para o ciclo da vida. Talvez nossas mentes não resistissem se soubessem que não existe, em nada, sentido. Teimamos em fazer tudo ter sentido. Teimamos em pensar que somos algo, sem ao menos saber o que é ser algo. Inventamos, então, os nossos “algos”, mas estes, de tão efêmeros, não sobrevivem ao fim. Pelo contrário, são descobertos por nós mesmos enquanto nos fitamos no espelho, numa noite fria e escura.
Teimamos, durante o curto momento lúcido que nos é oferecido, em fazer o que não somos capazes. Talvez como uma maneira – inútil, por assim dizer - de se evitar o fim. Cultuamos o belo fingindo não saber que, como um sonho bom, este sempre se extingue. Fingimos ser inteligentes e cultos sem saber que o ínfimo que sabemos terá fim assim como nós mesmos. Escrevemos livros ignorando o amarelar das páginas. Vivemos fingindo as verdades que nos fazem melhor.
O ópio que usamos para evitar o vazio da falta de sentido nos remete a um vazio análogo, ao qual não somos capazes de dar nome. É impossível, talvez, nomear este vazio por sua falta de fronteiras, pois um nome sempre impõe limites ou classificações. E é impossível classificar o inclassificável. O vazio sem nome, talvez, seja a origem de todas as dores.
Talvez nosso cérebro esconda a verdade no abismo mais escuro de si mesmo para nos proteger. Talvez ele saiba que somos limitados ao ponto de não poder sentir dor, e é sabido que a verdade é a mãe causadora de todas as nossas dores. Dores estas que são fragmentadas em outras tantas de tamanhos pequenos, a fim de fazer da vida algo suportável. Nosso cérebro, como fiel guardião deste segredo, suicida-se dentro de nós mesmos, para que nunca possamos chegar à verdade.
Há, confesso, os que desafiam a lei natural das coisas e, corajosamente, numa noite fria e escura, olham-se no espelho em busca da verdade. Estes, por ousarem buscar o que não lhes é de direito, são condenados à dor eterna. Enquanto vagam pelo negro caminho de suas próprias mentes, são obrigados a abandonar todos os pensamentos que lhes serviam de suporte e experimentam, então, andar por suas próprias pernas. Descobrem, assim, que o ser humano não é capaz de andar sozinho e se vêem jogados num lugar qualquer de uma rua desconhecida sem se ter para onde ir.
Eu lhes digo que quase alcancei o caminho da verdade e confesso que senti, sobre meu rosto, o hálito do vazio sem nome. Cheguei aonde nenhum outro jamais chegou: no abismo da minha própria mente. Mas tive medo e frio, deitei na cama, enrolei-me sobre o travesseiro e dormi.


