Textos do passado [3]: "O Vazio Sem Nome"
23:36 postado por Thiago Terenzi

Após algum tempo sem publicações, penso em postar o último texto da série de "coisas" que escrevi ao longo da vida.
Segui, como talvez seja fácil perceber, uma ordem cronológica. "Espelho Seu", de 2004, "O Velho e o Espelho", de 2005 e agora um texto escrito em 2006, com 16 anos.
Não postarei textos de 2007, uma vez que o blog teve início nesse ano e basta alguns cliques para encontrar vários textos.
Quis criar neste blog um caminho - abandono, aqui, qualquer idéia de progresso - ligando todas as minhas fases através do que escrevi.
Faço isso por mim mesmo. Quero, talvez, descobrir-me em eus passados.
O VAZIO SEM NOME
O pior é quando chega a noite. Fria e escura. Acendem-se, então, as lâmpadas artificiais. Mas elas não são de verdade, são amareladas e frias. É inevitável, assim, como se a própria noite convidasse, encarar-se no espelho. Este reflete não a nossa luz, mas sim uma luz qualquer, fria e escura.
Então, nos encaramos e olhamos diretamente para os nossos próprios olhos. Neste momento, percebemos que apesar de tudo o que fizemos, nada mudou. Nada muda. Nunca. Vivemos toda uma vida para no fim, tudo ser
Talvez a falsa ilusão de que podemos mudar alguma coisa seja necessária para o ciclo da vida. Talvez nossas mentes não resistissem se soubessem que não existe, em nada, sentido. Teimamos em fazer tudo ter sentido. Teimamos em pensar que somos algo, sem ao menos saber o que é ser algo. Inventamos, então, os nossos “algos”, mas estes, de tão efêmeros, não sobrevivem ao fim. Pelo contrário, são descobertos por nós mesmos enquanto nos fitamos no espelho, numa noite fria e escura.
Teimamos, durante o curto momento lúcido que nos é oferecido, em fazer o que não somos capazes. Talvez como uma maneira – inútil, por assim dizer - de se evitar o fim. Cultuamos o belo fingindo não saber que, como um sonho bom, este sempre se extingue. Fingimos ser inteligentes e cultos sem saber que o ínfimo que sabemos terá fim assim como nós mesmos. Escrevemos livros ignorando o amarelar das páginas. Vivemos fingindo as verdades que nos fazem melhor.
O ópio que usamos para evitar o vazio da falta de sentido nos remete a um vazio análogo, ao qual não somos capazes de dar nome. É impossível, talvez, nomear este vazio por sua falta de fronteiras, pois um nome sempre impõe limites ou classificações. E é impossível classificar o inclassificável. O vazio sem nome, talvez, seja a origem de todas as dores.
Talvez nosso cérebro esconda a verdade no abismo mais escuro de si mesmo para nos proteger. Talvez ele saiba que somos limitados ao ponto de não poder sentir dor, e é sabido que a verdade é a mãe causadora de todas as nossas dores. Dores estas que são fragmentadas em outras tantas de tamanhos pequenos, a fim de fazer da vida algo suportável. Nosso cérebro, como fiel guardião deste segredo, suicida-se dentro de nós mesmos, para que nunca possamos chegar à verdade.
Há, confesso, os que desafiam a lei natural das coisas e, corajosamente, numa noite fria e escura, olham-se no espelho em busca da verdade. Estes, por ousarem buscar o que não lhes é de direito, são condenados à dor eterna. Enquanto vagam pelo negro caminho de suas próprias mentes, são obrigados a abandonar todos os pensamentos que lhes serviam de suporte e experimentam, então, andar por suas próprias pernas. Descobrem, assim, que o ser humano não é capaz de andar sozinho e se vêem jogados num lugar qualquer de uma rua desconhecida sem se ter para onde ir.
Eu lhes digo que quase alcancei o caminho da verdade e confesso que senti, sobre meu rosto, o hálito do vazio sem nome. Cheguei aonde nenhum outro jamais chegou: no abismo da minha própria mente. Mas tive medo e frio, deitei na cama, enrolei-me sobre o travesseiro e dormi.
Textos do passado [2]: "O Velho e o Espelho"
15:36 postado por Thiago Terenzi

Continuando a série de postar textos escritos por um eu mais antigo, avanço um ano e publico, agora, um texto de 2005.
Curiosamente, este texto é um dos poucos que eu consigo rotular: parece um conto - ou, ao menos, tem personagens. Dois.
Não me reconheço nestes dois textos já postados. Não me reconheci aos 14 anos e nem agora aos 15. Mas acho, sobretudo, que nem me reconheço ainda.
O Velho e o Espelho
Desde muito, a luz do sol não iluminava com a mesma intensidade aquele pequeno quarto. O homem lembrava da época em que a luz era constante. Fora antes dos prédios, ele sabia. Com os prédios, vieram os cinzas e a escuridão, e o sol nunca mais bateu à sua janela.
Sem claridade, era difícil reconhecer, no quarto, traços de habitação. Parecia abandonado e só: tinha gosto de tristeza. Era vazio. Uma cama e um cobertor, apenas, identificavam o ambiente como sendo um quarto. Tinha, também, um espelho. Velho e trincado, pouco refletia. O homem evitava, sabe-se lá o porquê, encara-lo nos olhos, mas naquela tarde, em especial, ele o fez.
Era difícil enxergar algo. Teve, o homem, que cerrar os olhos e olhar atentamente. Viu o espelho, olhou-o nos olhos, e nos olhos, viu ele mesmo. Sua própria imagem encarando-o de forma vulgar. Era ele nos olhos do espelho, mas era um ele tão incomum...
Fitando a si mesmo, perplexo, o homem entendeu, como que se tivessem injetado a verdade em suas veias, a fugacidade da vida. Percebeu, então, que a vida, efêmera que era, o havia atropelado. Todos os anos e dias de sua vida, cada segundo que respirou, nada mais era que o prefácio de sua morte. Esta, bela e cruel, era análoga à vida, que nada mais servia senão à preparação para o nada eterno – este sim, o ator principal.
Mesmo com a pouca luz, o homem se viu sem vida. Não se lembrava tão velho. Na última vez que se viu, não existiam as rugas nem os cabelos brancos. Enxergou, enfim, que seus traços de velhice não o tornavam sábio ou experiente, e nem tinham qualquer significação nobre. Eram apenas a prova de sua fraqueza mortal perante o tempo. Era a derrota estampada em sua face. Em sua própria face.
Tentou chorar, mas o choro havia secado. Parecia não existirem mais lágrimas, uma vez que nunca as havia usado. Percebeu que deveria ter chorado durante vários momentos de sua vida, e lembrou-se de tantas outras coisas que deveria ter feito. Sabia, ele, da necessidade de olhar-se no passado e lamentar-se pelo que nunca fez, uma vez que já não existia mais futuro, mas também sabia que mudar o passado não faria do seu futuro algo diferente. Não importavam as escolhas, no final, os caminhos sempre se juntavam num mesmo destino. Enfim havia entendido que tentar viver uma vida só sua era apenas uma utopia.
O homem, que nunca havia acreditado no destino, pôde, então, enfim nele crer. Mas não acreditava no destino religioso, escrito por Deus. Era um destino mais negro e simples. Talvez, pensava ele, fosse negro exatamente por ser simples: nascemos para morrer. Simples e nada nobre. Doía a alma saber disso, mas o espelho havia dito e o homem não poderia mais viver sem encarar a verdade.
O sol se pôs e a pouca luz que iluminava o quarto se apagou. O homem deixou de olhar o espelho e adormeceu em sua cama. Viveu o resto de sua vida sem qualquer brilho maior e, então, morreu.
Textos do passado: "Espelho Seu"
02:41 postado por Thiago Terenzi

Munido da desculpa de reviver o passado - mas na verdade apenas maquiando a falta de inspiração (ou o medo de tê-la), resolvi buscar pelo computador coisas que escrevi durante os anos.
Acho que farei uma série rápida de seguidos posts sobre textos escritos há tempos. Este, por exemplo, cujo nome é "Espelho seu" e a foto ao lado curiosamente estava anexada junto ao seu título, foi escrito em 11 de fevereiro de 2004 (ou ao menos postada nesta data em um fotolog que nem tenho mais.
A qualidade deste texto - e provavelmente a dos que o seguirão - são questionáveis. Mas é curioso recordar o que se escreve aos 14 anos.
ESPELHO SEU
Da janela escura do meu quarto vejo o Sol nascer. Ele não é mais como antes: está menor, menos iluminado. Definitivamente não carrega mais, em seu intenso vermelho, a mesma poesia que um dia carregou.
Da janela escura do meu quarto observo o mundo e suas malditas belezas. Ouro dos tolos que um dia acreditei que poderia mudar. Mudar o mundo, mudar a vida declarando guerra aos inimigos sem saber ao certo onde quer chegar.
Da janela escura do meu quarto vejo o eterno espelho que volta no tempo teimoso em repetir o retrocesso romantismo dos heróis de toda uma geração.
Da janela escura do meu quarto vejo os rebeldes cantarem. Líderes de uma ideologia romântica e de um discurso nato. Pobres homens que escondem de suas próprias mentes o pensamento soturno da fantasia do poder.
Da janela escura do meu quarto vejo o Sol vencer as trevas num teatro impossível, ao menos possível aos anjos que teimam em exacerbar com tamanha facilidade o impossível aos pobres mortais que somos.
Da janela escura do meu quarto compreendo a razão dos suicidas ao perderem a razão: anti-depressivos incapazes de drogar os sábios que os tomam à beira de perder o saber viajando num mundo ilusório.
Da janela escura do meu quarto sinto o cheiro da chuva urbana trazendo tristeza ao infeliz mundo, utopicamente feliz. De sorrisos plastificados; de bocas secas espelhadas em almas igualmente vazias.
Da janela escura do meu quarto enxergo-me bem em vários eus passados, da ignorância sábia de não saber o futuro.
Da janela escura do meu quarto enxergo o passado, vivo o presente e temo o futuro. Não nesta ordem e nem nestes tempos, afinal, estes se confundem na ignorância de todos os sábios.
Da janela escura do meu quarto desabo buscando o passado das ruas lembaixo ou o futuro da incerteza da queda, certo de fugir do presente.
A Lágrima - Thiago Terenzi
02:27 postado por Thiago Terenzi

A LÁGRIMA – Thiago Terenzi
Escondo o que há de melhor em mim. Perdoe-me, mas sou limitado demais para mostrar-me por inteiro. Preciso do olhar blasé e do sorriso plastificado. Preciso mostrar-me menor, pois tenho medo de existir por completo – perdoe-me. Escondo o que tenho de mais humano em mim.
Pois livrei-me das crenças e das pasárgadas, mas restou-me a humanidade – nua em pêlo. Restou-me aquilo que me torna existível (e ao mesmo tempo torna o existir insuportável), mas tenho medo de mostrar-te. Tenho medo de gritar a plenos pulmões um grito sem significado e odeio este medo. Tira-me o medo e traz-me a coragem, pois preciso transcender. Faz-me ir além, por favor. Apego-me a ti, pois és o que resta. Sou pequeno e limitado demais. O que escrevo é muito mais do que sou – odeio ser algo além do que posso ser. Tenho medo e quero dormir, apenas, mas as palavras me saem pelos olhos e tenho que escreve-las – não se engane: eu não sou tão grande quanto as letras tortas que escrevo. Sou um embrião com frio a procura do útero.
Mas há tanta vida em algum lugar de mim que tenho medo de encontrar-me. Não sei se quero tornar-me o que sou de melhor. Não estou preparado. Sou pequeno demais para arriscar-me em vôos altos. Abraça-me e diga que está tudo bem. Mostra-me o que perdi aventurando-me no que não sou capaz. Traga de volta minhas pasárgadas, pois nunca estive preparado para perde-las. Não quero ir além. Viver dói.
Quero gritar. Amo a música, pois esta me dá desculpas para tal. Viu? sou tão pequeno que preciso de desculpas. Sou o menor entre os menores seres – justamente por ter algo de grandioso e não saber usar. Sou pequeno por ter, em meu peito, uma luz tão forte que trás medo. Não critiques-me, tu, por favor – és o que resta, traz-me conforto. Diga-me, tu, mentiras, pois tenho medo do que é verdadeiro.
Tenho medo de ser-me eu – apenas quem olhou meus olhos e capturou o instante nunca dito sabe do que digo. Mas não queira ser-me. Basta dizer-me o que peço a ti. És o que me resta e tenho medo de perder-te. Preciso que digas palavras mortas para da morte tirar meu existir. És necessário a mim... Não deixe de ler-me. Por favor... não sou tão nobre escritor, daqueles que escreve para satisfazer-se apenas. Escrevo, eu, pois preciso de ti. Mesmo que nunca saiba, eu, quem tu és. Preciso que me leias e traga-me o conforto materno enquanto busco em mim algo que faça sentido.
Mas não me critique. Estou fragilizado demais para críticas. Sei que és maior do que eu, mas diminua-te, por Deus, ao meu nível e diga os clichês necessários que imploro. Faz-me ser raso, pois a profundidade mata aos poucos – e quero morrer de morte rápida. Aos 27.
Queria dizer-te sem rodeios o que preciso que saibas. Mas sou pequeno demais para entender-me. Sou uma farsa e para fazer o que me é necessário, escondo-me por entre metáforas dostoiéviskianas, filosofias nietzscheanas e análises freudianas. Mas escrevo o que há de mais sincero em mim – escrevo à flor da pele e de olhos fechados.
Eis o que tenho de melhor:
Além dos olhos negros - Thiago Terenzi
02:38 postado por Thiago Terenzi

Eu vi – juro que vi! Fitei muito além da alma e ouvi muito além do grave que se ouve. Ouça-me por favor, pois preciso ser ouvido. Ouça-me o que conto, pois falar-me a tu é tudo o que importa – é o que transforma tudo o que vi em algo especial. Preciso que digas que é especial, pois só assim será. E quero tanto que chega a doer.
Vi – como estava dizendo, juro que vi! Vi além dos olhos negros que eram negros como o mais negro da alma. E assustei-me por ser capaz de ver além. Ah, como preciso contar-te o que vi. Por favor, ouça-me de olhos fechados, pois só a menção de ti contar faz-me os pêlos arrepiarem. Preciso tanto de ti neste momento – juro que não sabes o quanto. Pois o que vi é o que mais importa, mas só fará sentido se disser-me ser especial. Eu, por mim, sou palavra morta. Preciso de ti.
Quero que vejas o que vi – por Deus, ah... como quero. Quero que arrepie os pêlos como os meus estão agora arrepiados. Quero que compreendas o meu jeito tosco de escrever assim como eu me compreendo. Como queria levar-te a ver além dos olhos negros. Como queria mostrar-te ao menos os olhos – e poderia, mas não vou. Vou é descrever-te o que vi, mas não encontro palavras para tal... Seja-me por algum tempo e vejas por si mesmo! Por favor, mas não por muito tempo, pois há algo que jamais suportará ao ser-me. Nem ao menos eu mesmo suporto o fato de ser-me.
Como disse, fitei os olhos negros e vi além. Como era belo e quente e iluminado e inocente e edificante e doce e estimulante o que vi. Queria dizer-te tantas outras coisas, mas não há como dizer. Decifra-me o que quero dizer e sintas por si mesmo. E diz-me que é especial ir além.
Além dos olhos negros há o mundo das Idéias – mas ao avesso: não há verdade na essência. E é tão mais completo assim. Juro que sinto-me completo ao fechar os olhos e lembrar-me do que vi. (Quero que vejas também, mas não és capaz). Felicidade é uma palavra que limita o que senti: é pouco. Não tem a ver com a felicidade, tampouco lembra qualquer outro sentimento que já foi rotulado – acho que enfim senti algo que nenhum outro jamais sentiu: navego em mares que não foram navegados e não tenho medo, pois há só luz (e é tão escuro que queria mostrar-te). Como é difícil achar palavras para descrever um sentimento sem nome. Poderia, eu, criar qualquer neologismo, como alvitranscendência ou pluriteovidência – mas tenho medo de limitar o que senti com palavras. Tenho medo de perder-me ao tentar mostrar-te o que há de melhor em mim.
Vejas, tu, por favor. E diz-me ser especial. Diz-me ser real o que vi – pois só assim será. Olhos negros. Noite morta. Pele macia. Tato. Cheiro de cigarro. Gosto de lágrima. Rosto blasé – diz-me ser tudo real, pois do que vivi até então, talvez nem tu sejas. (os pronomes que uso propositalmente em excesso para expulsar da minha alma o que há de exagero em mim não são reais).
Ah, como quero novamente ver além, mas meu tempo é findo. Julho se aproxima e o inverno é inimigo. Diz-me que não foi em vão e ficarei satisfeito com o que vi. Diz-me com palavras sinceras que encontrei enfim algo que é digno de ser encontrado e morrerei por estar completo – mas diz-me. Pois vi a inocência pura onde os olhos tornam-se negros. Vi a luz da essência e quero embriagar-me em seu clarão. Diz-me que posso amar a luz, por fim. Diz-me que no fim tornar-me-ei senhor do eu mesmo – mas diz-me.
Psicografia - Thiago Terenzi
03:13 postado por Thiago Terenzi

E as palavras que são ditas. E os olhos que se fecham. E o instante que se edifica. E o corpo que se emudece. Tudo
E escrevo para entender o que há lá dentro. Frases soltas, sem sentido – não é mesmo para ter. A racionalidade me limita – logo eu que já sou tão limitado. Quero ir de olhos fechados, ouvir as teclas traduzirem o que há de escuro no mais escuro de mim. Escrevo para ser-me. Por necessidade, apenas. Não me leia – é pessoal. Não me entendo e não quero que entendam-me antes de mim.
Está tudo dito – tudo o que precisava ser. Mas ainda não me compreendo. Decifro-me e escrevo, mas não entendo. Ao menos não no instante congelado. Traga-me, tu, papel e lápis, pois há nisso a razão do existir – não escrevo por luxo ou para mostrar-me sabedor da língua – língua esta que uso ao avesso, num português particular. Escrevo-me para existir. Para cumprir uma missão que nem sei qual é. Não há opção – existem demônios que habitam sabe-se lá onde de mim e tenho que psicografa-los. Tenho que externar o que há de exagero em mim – uma lágrima, talvez, bastaria, mas não sei se sei chorar. Escrevo.
Nasci póstumo, confesso. Mas não tenho importância para a humanidade. Nasci póstumo de mim, apenas. Não me entendo, mas há algo a ser entendido. A posteridade não me entenderá, mas um eu posterior, talvez. Apego-me a esta esperança. E apego-me ao lápis já sem ponta (não acabe, por favor, és o que resta).
Há a música, também. Mas o que está para ser dito não se molda em melodias – há algo limitante em cada uma delas. Resta-me a prosa – mas as palavras são poucas e não há signos suficientes para traduzir os olhos que se fecham.
Escrevo em palavras simples, pois é tudo o que tenho. Mas há algo além delas. Olhe além do inteligível. Verás – prometo. Há um sopro da verdade no além-mar. Basta forçar a visão. Estou cego demais para enxergar além. Gasto o fôlego que resta desenhando letras – mas não entendo-as.
Há um sorriso. Lábios finos. Cheiro da madrugada. Corpo cheirando a cigarro. Rostos nus. Abraço. – Mas nada disso importa! Descrevo o que há no mundo externo quando busco fazer sentido. Nada disso precisa ser dito. Não há verdade externa – e eu busco alguma verdade para apoiar o corpo cansado. Estás vendo? Não buscarei mais sentido. Não serei mais explícito, pois estarei mentindo. E, por Deus, ao menos agora em meu momento mais necessário – juro que não quero mentir. Não a você – és importante.
Entendo agora o desespero e amor de Clarice por um leitor que nem conhecia. Juro – acredite em mim: este amor existe. Necessito, assim como ela, de você aqui, de mãos dadas. Nunca quis copia-la, mas juro que preciso de ti. Não é loucura – é que decifrar-me trás medo. E a lógica se perde e, então, preciso de ti. Preciso do lápis e do papel e da música e da literatura. Mas preciso de ti.
É que buscar o entendimento verdadeiro requer coragem. É preciso desapego. Não sei se estou preparado, mas é inevitável. Talvez sintas frio como eu. É possível que entendas o que não entendo – sempre fui arrogante demais para confessar-te minhas limitações. Mas tenho.
Poderia, eu, confessar-te em uma linha o que queres ouvir. Mas seria simplista demais. Guarde, por mim, o que há nas entrelinhas, mas não me revele. Há, entre o id, o ego e o superego, coisas que não me quero entender.
SOBRE O TEMPO
15:36 postado por Thiago Terenzi
E Ele, assim como Ana, prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu – uma tentativa desesperada, confesso, de eternizar a gota viva do que restou. Com delicadeza, guardou-o como quem toca numa borboleta – frágil. A delicadeza carinhosa, porém, análoga ao amor materno, fundiu-se ao desejo bruto e desesperado de não deixar o instante fugir – esmagou-se, então, a gota da vida pelo desejo de eterniza-la.
O instante findo tornou-se lágrima não chorada.. Pobre Dele que, assim como Ana, acreditou controlar o incontrolável – e acreditar em vão faz doer. É sabido, pois, que, em vão, tenta-se agarrar o momento presente – mas o que restou do presente? Imagina-se o presente, mas o instante fora esmagado segundos atrás – o que sobrou do presente? Respondo: as sobras do que preferem, os outros, de olhos fechados, acreditar. Preferem, os outros, viver de olhos fechados, pois temem abri-lo e constatar que não existe luz. Acreditam numa luz que nunca viram – mas, por Deus, não foram os mesmos que esmagaram o instante? – não os culpo: também esmaguei, assim como Ana, o que me restou. É amor de mãe – e amor de mãe mata.
Culpo o tempo – este sim é cruel (também sou humano e tenho a suja necessidade de achar culpados). Nem mesmo as mães são cruéis: o tempo é. Ele nos rouba o instante, que é tudo o que temos. Roubar-me o essencial é imperdoável. Os outros roubam vidas, riquezas e sorrisos – mas nada disso é necessário. O instante é – tantas coisas disse, em outros momentos, serem essenciais, mas agora estou convencido de que apenas o instante há de ser. Talvez nada seja essência, como disse Nietzsche, mas ainda me convenço em não ser um completo nietzscheano – tenho um lado romântico que me deixa respirar. A essência está no instante, mas esmagaram-no ao tentar protege-lo! A essência terá sido, então, esmagada? Mas e eu, que, assim como Ana e Ele, busco há tempos o que me é essencial? – busco, na verdade, o instante que passou, apenas – não me importa mais se no instante encontra-se a essência (mudo de idéia a cada letra, mas nunca soube mesmo o que pensar).
Fato é que o instante se foi e estou sozinho. Todos os instantes se vão e nenhum me preenche – nenhum preenche Ana e nem Ele. Nos dão o instante, mas ele nunca é nosso. Aquilo que nos fazia respirar não mais o faz – descobrimos, então, a realidade: respiramos independente das coisas boas: eis o fim do romantismo.
Eis, também, o fim do sorriso. O sorriso que sorriu ficou no instante em que morreu. Tudo o que nos tornava seres completos nem mais existe. Estamos incompletos procurando algo que nos consuma. Porque o tempo, cruel, há de também nos consumir – mas isso, astuto, fará no fim. Quando não existir mais com o que nos torturar.


