Um telefonema

18:00 postado por Thiago Terenzi

Nervosa sob o espelho, reflexo de seu próprio reflexo, olhos fitando a si próprios – nervosa ela seguia, mansa, doída. Mas seguia. E dizia em voz trêmula a si mesma (quem sabe ao próprio reflexo) dizia, sim, vou ligar. E decidida e frágil e errante e cheia de dúvidas – como de fato são os heróis de carne e osso, se é que existam heróis – ela quis ligar. Não que antes não quisesse, mas –. Difícil dizer. Difícil dizer sobre o antes quando nem ao menos tem-se o depois. É que desde aquele dia em que algo sem nome morrera: não havia antes ou depois. Havia o desde então.

E desde então ela disse num sussurro à sua própria imagem refletida, disse sim, vou ligar. E bebeu mais um gole da bebida e pensou que diria olá, gostaria de te convidar para uma festa aqui em casa, mas pensou que seria formal demais e não havia motivos para mais barreiras que os muros infinitos que já os separavam. Depois pensou em dizer oi, vem aqui amanhã, festinha só para os íntimos, porque haviam sido íntimos e intimidade, quando da alma, é eterna. Mas depois lembrou que nem haveria festa e nem havia intimidade ou amigos. Não havia restado muito além da dor e alguma bebida quente no armário entre a geladeira e a janela fechada. Sempre fechada.

Então diria oi, como vai? liguei pra saber as novidades, vai mesmo viajar? Irlanda? Europa dizem que é linda. Diria como se não houvesse qualquer abismo, na esperança de que eles tivessem de fato desaparecido – mas havia abismos. Que fazer de um silêncio sólido? Que fazer quando – porque iria – receber ao telefone o silêncio da falta de sentido?

Não havia espaço para faltas de sentido. Não havia espaço para fraquezas ou telefonemas bêbados e inesperados às três e quinze da madrugada como se nada tivesse acontecido. Não havia espaço para recuperar o irrecuperável. Eis a tragédia da vida, pensou ela entre um gole amargo da bebida e um sorriso irônico e descrente.

Ela, naquele ponto da madrugada e da embriaguez (talvez mais embriaguez que madrugada, porque nem parecia ser assim tão tarde) – ela nem sequer lembrava do que havia acontecido. Alguma briga, algum resquício de orgulho idiota, alguma imaturidade infantil; ou talvez algo grave, uma palavra irremediável – ah, como tinha talento para dizer o irrecuperável –, uma descrença sem motivo ou sabe-se lá o que mais. Não importava motivos. Nunca importaram.

Importa dizer que ela ligou – ah, ela ligaria hora ou outra da madrugada. Chamou uma, duas vezes. Desligou – ah, ela hesitaria, jamais esteve preparada para o silêncio. É que tinha bebido e a bebida poderia lhe atropelar as palavras. Depois de tanto abismo a bebida lhe falharia a voz, se enrolaria num cumprimento embolado – nunca havia sido forte para o álcool. Nunca havia sido forte. Desligou o telefone.

Aquilo

12:57 postado por Thiago Terenzi

A gente sabe, gato, a gente sabe quando começa Aquilo. Alguma bebida no copo, talvez cerveja nem me lembro, estava calor – é devia ser cerveja. Alguma bebida, algum filme cult europeu, algum carinho e alguma solidão. Alguma vontade tímida e um monte de medos e inseguranças também. Tudo muito bem maquiado naquele meu jeito de garota-sem-recalques-nem-problemas, sabe? e o seu olhar de homem-plenamente-feliz já meio embargado pelo álcool.

E eu bebendo aquele copo de nem-me-lembro-o-quê que provavelmente era cerveja – a gente sempre acaba nela – e segurando o copo porque precisava segurar, sou inquieta você sabe, se não tenho nada nas mãos enlouqueço. E disfarçando a inquietude e bebendo já meio zonza e você rindo se fazendo de homem-forte-pra-bebida sem nem saber que já estava tonto. Ah, gato, a gente sabe quando começa Aquilo.

De repente aquela vontade de te ler alguma coisa, eu querendo recitar livros, Bandeira Clarice Caio Fernando Hilda Hilst – ah, Hildinha cairia bem, te diria ah, a vida é líquida, e você riria sem entender muita coisa. Mas nem disse nada, não digo muito. Devo ter bebido outro gole e você assustado me achando excessivamente alcoólatra e eu assustada sem querer parecer excessivamente bêbada embora estivesse de fato bêbada – e me fosse de fato aos excessos. E você me olhando com seus olhos de homem-plenamente-feliz embora não fosse nem feliz nem pleno, mas nem importava.

E então a gente soube entre um álcool e outro – filme na tevê, provavelmente cinema espanhol ou italiano, luzes apagadas e barulho dos carros lá fora – e então a gente soube. A gente sempre sabe quando começa. Porque naquele instante éramos nós dois sem máscaras ou teatro, nada de garota-sem-recalques ou homenzinho-forte-e-feliz, éramos sós e nus. Cheio de medos e pés atrás você disse este sou eu, e eu sussurrei alguma coisa bonita, talvez uma música, não me lembro. Talvez nem tenha dito nada, vai saber. A memória sempre nos rouba o mais importante.

De repente eu queria dizer – ah, eu e minha mania chata de sempre querer dizer. E dizia e dizia sempre em silêncio sempre sem mexer os lábios e você entendia e dizia também sem palavras fecha os olhos que assim a gente congela o instante. E a gente meio bêbado fechava os olhos e o mundo rodava e rodava mas nem tínhamos medo e eu semicerrava forte a visão para fazer do instante eternidade. Ah gato, já sou velha demais para acreditar em eternidades de modo que sabia que aquele único segundo era a minha salvação. Era aquela partícula de tempo e só. Depois viriam ódios ciúmes discussões e um monte de coisas boas mas que jamais seriam Aquilo. E depois viria as tentativas desesperadas de salvar o que já estaria morto, aquela coisa desgastante de remediar o irremediável e fazer política do amor... Mas naquele instante, naquele único instante estávamos salvos. Completamente salvos porque nós mesmos nos salvávamos.

Ah, gato, a gente sempre sabe quando começa Aquilo.

Comédia romântica

12:30 postado por Thiago Terenzi

E mesmo hesitante entre caminhos tortos tateando cego em busca de alguma calmaria que lhe fosse de direito, mesmo trêmulo e vacilante entre os prédios e os concretos de cidade-mais-ou-menos-grande de mendigos prostitutas drogas fáceis e alguma solidão, mesmo entre o frio de algum inverno de tempo-louco-de-cidade-mais-ou-menos-grande, mesmo apesar de sabe-se-lá-o-quê – ele disse: – escuta: vamos tentar. Não que seja fácil ou que consigamos – provavelmente nem conseguiremos, quem consegue? mas vamos tentar que a tentativa por si só liberta.

Escuta: vamos tentar porque eu não quero me render – eu não quero nos render. Quero lutar e remar e buscar qualquer utopia perdida em alguma esquina torta que ainda não conheço. É que a gente se salva é pelo caminho – a tentativa é que salva. O final é só o final: a legenda sobe, as luzes se ascendem e pronto. Acaba. O filme acontece é no erro. A gente acontece é no erro. É no imbróglio que se vale a pena.

E então a gente despe as máscaras e tenta. De olhos fechados como tem que ser. A gente finge ter quinze anos e não ter traumas barba vícios responsabilidades pés atrás bons modos e toda essa merda que limita. A gente esquece os outros dez amores, trinta desilusões, cinqüenta trepadas inúteis entre um álcool e outro – e então a gente tenta. Acredita em fada duende papai noel deus comunismo e amor eterno outra vez.

Escuta: vamos tentar que eu te quero bem. Gosto do seu jeito perdido porque eu também estou perdido e já que não se pode encontrar o caminho – que então nos encontremos. E então a gente rema, juntos, e erra e acerta e chora e se diverte e se precisa e se descobre como fazem as crianças apaixonadas aos quinze anos.

Um porto

23:42 postado por Thiago Terenzi

Era assim: algumas cervejas no bar, duas ou três tequilas e um daqueles inferninhos imundos da cidade – um daqueles onde se encontram os que restaram. E ele restara.

Os inferninhos eram todos iguais: uma porta apagada num canto deserto, dois lances de degraus melados num misto de cerveja e vômito, um balcão com duas ou três cervejas importadas e um banheiro onde se espremem os que o querem para sexo, mijo ou cheirar pó. E ele nem queria o banheiro.

Na pista – de onde estava conseguia enxergar com alguma dificuldade –, rostos sem identidade suados pela batida eletrônica ritmada comandada por um DJ que nem ao menos sabia tocar – mas tentava. Era ali, aliás, a noite das tentativas. Os corpos na pista se tentavam em busca um do outro para encarar a madrugada sempre fria. Os olhos tentavam alguma luz em meio à solidez rude dos cantos escuros. E ele tentava alguma coisa que ainda não sabia. E em busca dessa tentativa cega, estava ali: cerveja importada em mãos, sorriso vazio disfarçando a solidão e corpo se movimentando errante ao ritmo do som.

Qual o seu nome? perguntou cego a sabe-se-lá-quem e recebeu como resposta talvez um nome ou um isso importa?, nem se lembra mais. Depois ouviu-se frases soltas como gostei de você ou você trabalha ou só estuda? ou essa música é uma das minhas preferidas. Depois veio o beijo e permitiu-se então – por alguns instantes – terem-se um ao outro. Depois veio algo como sou de peixes e você? você tem um rosto lindo moro sozinho quer ir na minha casa escutar música e beber vinho? tenho alguns discos de rock e pizza na geladeira.

Depois treparam de mãos dadas com os dedos entrelaçados como fazem os casais apaixonados aos cinco meses de namoro e se abraçaram como se fossem necessários um ao outro. Fumaram um ou dois Marlboros vermelhos ainda nus e melados exaustos naquela cama de solteiro e se disseram até logo ou até nunca, difícil saber.

É tudo luz e sonho

00:52 postado por Thiago Terenzi

É que a noite é onde os que não pertencem se encontram – vento frio e gélido sobre os corpos e os rostos assustados, como são os rostos e os corpos daqueles que nos são estrangeiros. E ela, estrangeira que era, não pertencia. E habitava a noite, como habitavam aquele lugar todos os seres errantes que vagavam imundos pela madrugada.

Ela, sentada às duas e vinte naquele bar-de-gente-imunda-e-estrangeira, ela: sorria. Não que houvesse qualquer instante de felicidade – embora anos mais tarde reconhecesse aquele momento como o de uma felicidade nostálgica e bonita – mas é que ali lhe era permitido o sorriso. E ela sorria apenas porque não lhe tiravam direito. É que na noite não havia direitos roubados. É tudo luz e sonho, ouviu numa música tempos atrás. E solidão, completou.

É tudo luz e sonho, cantarolou num sussurro baixinho e depois cantarolou de novo e de novo – é que aquilo era tudo o que a memória lhe permitia gravar. E repetiu incansavelmente aquela melodia turva e aconchegante porque repeti-la era maneira de se fazer do mundo de fato: luz e sonho. Apenas anos mais tarde, já velha e sozinha (como são as mulheres solteiras aos quarenta) é que descobriria a veracidade do que cantava. É tudo luz e sonho.

E de repente – porque na noite há apenas os de repentes – uma mulher que também não pertencia reconheceu-a. As mulheres estrangeiras se reconhecem pelo olhar – e pelos cabelos mais ou menos ensebados de dois dias sem lavar, porque na noite não há tempo.

- Tem fogo?

- Eu sempre tenho fogo e cigarro.

Qual delas disse o quê não importa. Nem importam os cigarros e o diálogo. É que em alguma entrelinha daquele instante elas se diziam algo de necessário. Era algo como aqui dói e sei que em você também, por isso preciso de você porque você me faz conseguir alguma coisa que nem sei. Só me deixa sentar aqui e beber uma vodca contigo que é tão difícil enfrentar a noite, cê nem imagina. Juro que quando o sol nascer eu vou embora dormir bêbada e sozinha na minha cama fria e cruel – mas por enquanto só me deixa aqui que eu te deixo também.

E ao emprestar o isqueiro a outra dizia em entrelinha senta e fica porque preciso da sua solidão. Olha, só por esta noite, vamos pertencer, vamos nos pertencer? Eu te amo porque eu quero amar mas acho que não sei – então eu te amo. Me ama também porque amar é tão bonito.

Obviamente nenhuma delas disse nada daquilo – apenas conversaram como conversam as mulheres bêbadas que fingem não serem estrangeiras. Mas em algum lugar dos seus olhares elas se abraçaram. E enquanto uma pensava em perguntar algo que lera certa vez em um livro, algo como será amar dar ao outro a própria solidão?, a outra dizia em pensamento fecha os olhos e acalma. É tudo luz e sonho.

É tudo luz e sonho.

No mirante

18:53 postado por Thiago Terenzi

Desce do carro e vem aqui. Vista linda, né? grande pra cacete, dá pra ver a cidade toda. Adoro aqui, parece que a gente é Deus, percebe? O mundo rodando lá em baixo e a gente aqui, superior, alheio a tudo. Sente o vento no rosto, gata, e fecha os olhos.

Tá vendo aquela luz forte ali quase no fim do horizonte? ali é o estádio, é o Mineirão. Aquele pretume ali é a Pampulha. A cidade parece cheia de mistérios pras pessoas lá embaixo mas na verdade é só isso aqui. Simples. A gente é que complica tudo.

Tá vendo os prédios altos ali? lá é a boate que a gente tava. Parece que a cidade é grande mas na verdade cabe numa foto, vê? Na verdade essa cidade é toda assim, não sabe se é cidade grande ou pequena. Ainda não se decidiu. Às vezes acho tudo muito grande e às vezes ela me sufoca de tão pequenininha. Mas daqui de cima a gente parece ser maior que ela – e a gente é gata, a gente é. Daqui de cima a gente é o que quiser.

Não sei se você consegue enxergar mas perto daquele relógio do Itaú ali naquele prédio grandão, é por ali que eu moro. Viu? ah, deixa pra lá. Você nunca vai na minha casa mesmo, né? no máximo a gente vai se encontrar em algum boteco por aí. A cidade, mesmo sendo essa imensidão toda, é pequena. A gente vai se encontrar nos botecos da noite, gata, relaxa. A gente sempre encontra quem é da noite.

Muito louco tudo isso, né? ah, isso tudo. Olha pra você ver: neste momento eu estou inteiramente na sua mão mas a gente nunca mais vai se ver. No máximo iremos nos cumprimentar num dos botecos da noite e fazer um comentário com algum amigo do tipo “tá vendo ela ali? trepei há uns três meses”. E depois seguiremos perdidos. Mas neste exato momento eu preciso de você porque você me causa alguma coisa boa que eu nem sei explicar.

Olha, eu poderia me apaixonar por você agora neste exato momento mas não vou. Eu consigo controlar essas coisas, gata. Eu sei quando posso me apaixonar e sei evitar também. É que essa vista bonita deixa a gente meio bobo, meio apaixonado mesmo. Acontece com você também? Não, não se apaixona por mim que eu sou todo problemático. Não daria certo: eu fumo, você não. E tenho mil traumas e coisas do tipo. Além do mais você é legal e inteligente – e a gente um dia ia terminar e nos odiar mortalmente. Não, não quero mais ódio na vida, gata. Quero só amor.

Pode fumar um cigarro? sim, aqui é sempre deserto, sim. As pessoas costumam vir aqui pra trepar e fumar maconha mas eu curto ver a vista, sabe? Claro que vamos acabar trepando e se quiser eu tenho unzinho aqui já enrolado e tudo, mas eu sempre venho pra ver a cidade, pra ser a cidade. Sei que parece loucura mas se a gente abre os braços e fecha os olhos a gente acaba sendo a cidade, entende? E esta cidade é tão triste, fecha os olhos pra sentir. Ela parece com você: cheia de planos lindos mas com um milhão de traumas pra estragar tudo. Deixa de estragar tudo e seja só linda, gata. Como eu descobri seus traumas? eu sei ler olhares. Eu sou da vida, eu sou do mundo, esqueceu? Eu sei ler olhares e gestos. Se você fingir orgasmo eu vou saber, acredite. Eu moro na noite desde os treze, olhares tristes iguais ao seu eu vi aos montes.

Ah, você ainda nem sabe que é triste mas um dia descobre, pode acreditar. É inevitável, gata: você é da noite, como eu. Você não é mulher de lavar roupa e casar, você não é igual às outras. Você é da noite e ser da noite machuca às vezes – mas agora já era. Quem experimenta não volta. Quem tira a coleirinha uma vez não pode usar de novo.

Quer cigarro? daqui de cima a gente parece ser onipotente, não acha? A loucura na cidade lá em baixo e a gente aqui, superior. Quer saber? gostei de você. Não por ser você, mas acho que gostei de alguma coisa em mim gostando de você. Gosto do jeito com que você me faz ser eu. Vai ser uma pena nunca mais te ver. Mas enquanto a gente estiver trepando eu vou fechar os olhos e congelar o instante comigo. Às vezes faço isso: capturar os instantes.

Tô ficando meloso e repetitivo, né? mas é que a gente vai ficando velho e fica meloso e repetitivo mesmo. É inevitável. O céu tá ficando claro, vê? é o sol nascendo. É lindo, olha. É tão bonito que vou me permitir te amar só pra noite ser perfeita. Depois eu te esqueço porque não vale a pena tentar ser o que não somos. Amanhã a gente se esquece daí só vai sobrar uma lembrança gostosa de um dia perfeito. Vai ser legal.

Mas neste instante eu tô te amando, gata, de verdade. Me ama também só até o sol nascer por completo. Agora me abraça e sejamos nós dois.

Nós dois.

Mas há a vida

18:12 postado por Thiago Terenzi

E então, num dos de repentes de viver, ele enfim percebeu e sussurrou a si mesmo num sussurro baixinho de segredo revelado, “então isso é o fim?”. Casa vazia, escura; rostos congelados, silêncio gritante. Então isso é o fim?

A cama, deserticamente vazia, hermeticamente incompreensível – ah, a cama, banhada pelos raios do sol-de-ressaca – a cama denunciava o fim. A garagem vazia – insoluvelmente vazia. O dedo recém liberto ainda marcado pela ausência presente da aliança. Os copos ainda sujos de vinho barato sobre a bancada da cozinha. Os corpos ainda sujos pelo gozo cortante da madrugada. O beijo quase dado ainda compunha o ambiente irritantemente comum daquela manhã. Era um dia irritantemente amarelo. I-rri-tan-te-men-te.

- Então isso é o fim? – sussurrou novamente para sei-lá-quem ouvir.

E então abriu a geladeira: ainda havia metade daquele vinho barato travestido em vinho tinto seco de bom tom. Logo ele que nunca gostou de vinho. Bebia pelo bom tom. Trevestia-se pelo bom tom.

E então encheu o copo e bebeu: era álcool, foda-se. E então repetiu a si mesmo pois repetir fazia daquilo coisa palpável, “então isso é o fim?”. Porque só o palpável era engolível – e era preciso engolir os de repentes como se engolia aquele vinho barato de bom tom: em goles secos e gritantes.

Foi quando percebeu que nunca gostara de vinho – e odiava bons tons. Queria mesmo era beber vodca e escutar Raul Seixas e depois vomitar na privada do banheiro do apartamento e dormir com o hálito azedo de cigarros e enjôos. Mas bebia vinho e ouvia Caetano cercado de gente estranha e comentários inteligentes. E, se queriam saber – e provavelmente nem queriam –, ao contrário dela, ele não era comunista nem marxista nem qualquer outro ismo ideológico. Na verdade, estava era pouco se fodendo pra política ou qualquer besteira do gênero. Aquele papo de igualdade, alienação e direitos do proletariado era só vontade de trepar porque, antes dela, não trepava há três meses mas agora nem importava mais.

Depois veio a paixão. E os vinhos, os Caetanos, os Kafkas, os marxismos e todo o resto. Justo ele que só queria ver os jogos do Cruzeiro e comer McDonalds às quatro da manhã só porque amava McDonalds e qualquer outro lixo plastificado. Mas abriu a geladeira outra vez e teve nojo daquela comida natural. Se era então o fim, por que comida natural na geladeira? Por que diabos comida natural?

Mas então lembrou que a comida natural e os discos de Caetano e os vinhos de bom tom eram porque amava, apesar de. E lembrou que essa coisa gritante e serena que chamam de amor era maior que os Caetanos e os ismos ideológicos – e então o ódio se foi.

Depois de meses de trepadas sem sentido e cocaína barata foi que descobriu que o ódio é saída dos fracos. E então, - não antes de muitas lágrimas – aos poucos, num de repente longo e doído, a dor se foi.

E então sorriu de um sorriso sincero de quem enfim compreendia o fim. E compreendeu que compreender era aceitação serena. Era vasto, bonito. Sem dor.

E percebeu, enfim, que aquele era simplesmente: um fim. Simples, triste e bonito como todo o resto. Aceitou – sereno – e viveu os começos que ainda viriam.

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